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6 Milhões de Afegãos Deportados: O drama de quem nunca esteve no Afeganistão e é forçado a recomeçar em país do Talibã

Afegãos deportados buscam recomeço em terra desconhecida, enfrentando crise humanitária e restrições do Talibã

Idosos com dificuldade para caminhar, crianças abraçadas a galinhas e famílias inteiras despojadas de seus pertences. Essa é a realidade de milhões de afegãos que, após anos vivendo no Paquistão e no Irã, são agora deportados para um Afeganistão que muitos sequer conhecem. A situação humanitária é crítica, com fome, falta de moradia e o medo constante do futuro.

A fronteira de Torkham, o chamado “Ponto Zero”, tornou-se o palco de um dos maiores fluxos de retorno forçado da história recente. Pessoas que nasceram e cresceram em outros países, e que nunca pisaram em solo afegão, agora se veem obrigadas a recomeçar em um país sob o regime do Talibã, enfrentando um cenário de instabilidade e precariedade.

A deportação em massa, que atinge cerca de seis milhões de pessoas, segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur), expõe a vulnerabilidade de afegãos, muitos dos quais não possuem documentação adequada. A ONU e organizações de direitos humanos alertam que as operações de expulsão, impulsionadas pelo Paquistão e pelo Irã, afetam também aqueles com registro oficial, em uma crise que não dá sinais de trégua. Conforme informação divulgada pelo Acnur, o número de pessoas obrigadas a retornar neste ano do Paquistão e do Irã já ultrapassou um milhão.

O drama de quem retorna a um país desconhecido

Nazia, de 35 anos, cruza a fronteira do Paquistão com o Afeganistão, um país que ela nunca visitou. “Nunca estive no Afeganistão, e muita gente aqui não tem nem pão suficiente para comer”, lamenta, acompanhada de seus filhos. Sua família inteira, incluindo oito irmãs e seus filhos, foi deportada neste ano. Eles compõem parte do expressivo número de seis milhões de afegãos que retornaram ao país, uma população equivalente à de um país pequeno, como aponta Charlie Goodlake, porta-voz do Acnur no Afeganistão. “Na história recente, nunca vimos um movimento de retorno dessa dimensão”, ressalta.

A paisagem desoladora nos acampamentos próximos à fronteira, com abrigos de lona e plástico deteriorados, é um reflexo da difícil situação enfrentada pelos recém-chegados. Muitas dessas pessoas passaram décadas fora do Afeganistão. Sarwar, que saiu há 45 anos durante a invasão soviética, relata a dor de ter que deixar sua casa no Paquistão, mas também alivia-se do “assédio da polícia do Paquistão”, uma queixa comum entre as famílias ouvidas.

Paquistão e Irã intensificam deportações em meio a tensões e acusações

Tanto o Paquistão quanto o Irã justificam as deportações alegando que os afegãos deveriam retornar ao seu país de origem, citando preocupações com a segurança e custos econômicos. As expulsões do Paquistão se intensificaram após confrontos na fronteira com o Afeganistão, e a Human Rights Watch denunciou operações de “porta em porta, buscas em residências durante a madrugada e prisões sem mandado”.

No Irã, onde mais de quatro milhões de afegãos sem documentação residiam, as deportações ganharam força após conflitos regionais. O Centro de Direitos Humanos no Irã acusou as autoridades iranianas de “lançar suspeitas sobre os imigrantes afegãos, acusando-os de espionagem e tratando-os como possíveis espiões de Israel”.

Futuro incerto para mulheres e meninas sob o regime do Talibã

A situação precária se agrava com a incerteza sobre o futuro das mulheres e meninas em um Afeganistão onde o Talibã as excluiu da vida pública, incluindo o acesso à educação superior. Zarina, cunhada de Sarwar, expressa sua preocupação: “Olhe para elas, são todas meninas. É claro que estou preocupada”. A falta de recursos para abrir um negócio ou garantir o sustento é uma realidade imediata, agravada pela fome que assola o país.

A ONU estima que 21,9 milhões de afegãos, quase metade da população, precisarão de ajuda para sobreviver neste ano. O Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) alertou que um milhão de crianças enfrentam desnutrição grave. “Nenhum país do mundo conseguiria enfrentar sozinho uma crise desse tipo”, afirma Goodlake, do Acnur. Ele também ressalta que as restrições impostas pelo Talibã, especialmente contra mulheres e meninas, dificultam a obtenção de apoio internacional.

O ministro das Relações Exteriores do Talibã, Amir Khan Muttaqi, admite a necessidade de ajuda, mas considera o retorno das pessoas “benéfico a longo prazo”. Ele classifica questões como a educação das meninas como “assuntos internos” a serem resolvidos pelos próprios afegãos. O isolamento internacional do Talibã, com apenas um país reconhecendo formalmente o governo, é um obstáculo significativo, apesar de Muttaqi destacar o aprofundamento das relações com países vizinhos.

Enquanto o Talibã busca legitimação internacional, as famílias deportadas em “Ponto Zero” enfrentam a dura realidade de recomeçar “nada”, tendo perdido suas casas, suas vidas e a esperança de um futuro seguro. A palavra “nada” ecoa o sentimento de desamparo e a magnitude da crise humanitária que se desenrola na fronteira afegã.

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