BRICS: União de Interesses ou Fórum de Divergências?
A Índia sedia a 18ª reunião de cúpula do BRICS neste fim de semana, um evento que, mais uma vez, expõe a **vocação do bloco como um palco para interesses díspares** de seus membros. As agendas individuais de países como China, Rússia, Índia, Brasil e África do Sul frequentemente se sobrepõem ao discurso oficial de união contra a hegemonia ocidental.
Essa falta de coesão não é novidade e já foi evidenciada na cúpula do ano passado, realizada no Brasil, quando nem o líder chinês Xi Jinping compareceu. Agora, a presença de líderes é mais robusta, mas as tensões internas persistem, dificultando a formação de um consenso forte.
A reunião na Índia promete ser um teste para a capacidade do BRICS de apresentar uma frente unida, especialmente diante das complexas relações geopolíticas atuais. Conforme informações divulgadas, a expectativa é que a cúpula reforce a ideia de que o BRICS é, na prática, um **fórum para interesses de nações com diferentes visões de mundo**.
Líderes Presentes e Ausentes Destacam Divisões Internas
Dos quatro países fundadores do BRICS em 2009 (Brasil, Rússia, Índia e China), o único líder ausente será Luiz Inácio Lula da Silva, devido à sua campanha à reeleição, sendo representado pelo chanceler Mauro Vieira. Estarão presentes o presidente sul-africano, Cyril Ramaphosa, e convidados da expansão de 2023.
Um dos nomes de maior relevância política é o iraniano Masoud Pezeshkian, buscando apoio internacional em um momento de tensão militar com os Estados Unidos. A presença do príncipe herdeiro dos Emirados Árabes Unidos, Khaled bin Mohamed bin Zayed, também é notável, visto que os EAU romperam relações comerciais com o Irã, um dos novos membros do bloco.
Tensões Geopolíticas e o Papel da China e Rússia
A relação entre Irã e Emirados Árabes Unidos já **bloqueou um comunicado oficial do BRICS neste ano**, e há receio de que o mesmo possa ocorrer na cúpula atual. Xi Jinping e Vladimir Putin apoiam o Irã, mas não necessariamente a Índia, evidenciando a complexidade das alianças dentro do grupo.
A importância do encontro se concentra na presença de Xi Jinping em solo indiano pela primeira vez em sete anos. Este movimento ocorre em um contexto de **escaramuças fronteiriças entre China e Índia**, potências nucleares asiáticas. Narendra Modi, anfitrião, busca articular alianças militares que desconfiam das intenções de Pequim no Indo-Pacífico.
Interesses Econômicos e Retórica Anti-Ocidental
Vladimir Putin, já em Nova Délhi, prioriza a manutenção do canal de exportação de petróleo russo para a Índia, crucial para a economia de Moscou sob sanções. Durante o fórum empresarial da cúpula, Putin acusou o Ocidente de orquestrar ataques a infraestruturas energéticas de países do BRICS para **retomar a hegemonia econômica**.
Para o Brasil, a cúpula representa mais uma oportunidade para debater a integração de meios de pagamento digitais entre os países do BRICS. Embora de difícil execução, a discussão gera irritação em Washington, que vê o bloco como uma frente hostil, apesar das linhas de diálogo e interesses próprios que cada país mantém com os EUA.
O Futuro do BRICS em Meio a Interesses Conflitantes
A reunião na Índia, portanto, não é apenas um encontro de líderes, mas um **termômetro da coesão e dos desafios enfrentados pelo BRICS**. A capacidade do bloco de superar suas divergências internas e apresentar uma voz unificada determinará sua influência no cenário global.





