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Acordo de Paz com Farc Completa 10 Anos Sob Sombra de Ataques e Expansão de Grupos Armados na Colômbia

Acordo de Paz com Farc: 10 Anos de Luta Contra a Violência e Desafios na Colômbia

Há uma década, a Colômbia celebrava um marco histórico: o acordo de paz entre o governo e as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia). Em 26 de setembro de 2016, o então presidente Juan Manuel Santos e o líder das Farc, Rodrigo Londoño, selavam o fim de um conflito de 52 anos. A cerimônia em Cartagena, com a multidão vestida de branco, simbolizava o cansaço de um país com a guerra e rendeu o Nobel da Paz a Santos.

No entanto, a euforia inicial logo deu lugar à incerteza. Menos de uma semana após a assinatura, a população rejeitou o acordo em um plebiscito por uma margem apertada. Uma nova versão foi assinada em novembro, em uma cerimônia mais discreta. Esse início conturbado prenunciava as dificuldades na implementação, e hoje, dez anos depois, a Colômbia enfrenta uma nova escalada de violência, com a expansão de grupos armados e o aumento de massacres.

Determinar o legado do acordo é complexo. Por um lado, mais de 13 mil pessoas deixaram as armas, e cerca de 85% estão em processo de reintegração. Por outro, a violência persiste. Conforme informações divulgadas pela Força Pública da Colômbia, o número de membros nas três principais organizações armadas do país saltou de 6.519 em 2017 para 24.610 em 2025, um aumento quase quádruplo em oito anos. A Unidade para as Vítimas reporta que o número de deslocados forçados quase dobrou desde 2016, ultrapassando 290 mil no ano passado. Dados do Indepaz indicam um aumento de massacres, de 137 em 2016 para 256 em 2025.

Lentidão na Implementação e Impacto nas Vítimas

Especialistas apontam a lentidão na implementação do acordo como um dos principais fatores para o cenário atual. O Kroc, instituto de estudos para a paz da Universidade Notre Dame, estima que, em 2025, apenas 36% das 578 cláusulas do acordo foram completamente implementadas, enquanto 8% sequer foram iniciadas. O prazo para a execução completa é 2031, 15 anos após a assinatura.

A advogada Paola Molano Ayala, mestre em direito internacional, destaca os Programas de Desenvolvimento com Foco Territorial como um dos avanços significativos. Entre 2018 e 2024, essa iniciativa reduziu a pobreza multidimensional em mais de 15 pontos percentuais em municípios afetados pelo conflito, segundo a Agência de Renovação do Território. No entanto, a proteção de ex-guerrilheiros é um ponto crítico. Um relatório da Missão de Verificação das Nações Unidas na Colômbia apontou que 493 ex-combatentes foram mortos desde a assinatura do acordo.

Desafios Políticos e a Busca pela “Paz Total”

A oposição ao acordo de paz não é nova. O plebiscito que rejeitou o texto inicial foi considerado um erro estratégico por Andrei Gómez Suárez, especialista em resolução de conflitos armados. A implementação, segundo ele, começou sem legitimidade suficiente, o que abriu espaço para críticas e tentativas de modificação, como as defendidas pelo partido Centro Democrático.

A eleição do primeiro presidente de esquerda, Gustavo Petro, em 2022, trouxe esperança, mas seus esforços foram direcionados à sua promessa de “paz total”. Essa estratégia, que envolve negociar com grupos armados remanescentes, acabou criando um ciclo vicioso: quanto mais o acordo de 2016 era deixado de lado, menor o interesse dos grupos em dialogar. A desconfiança sobre a continuidade das políticas após o fim de um governo é uma barreira significativa.

O Futuro Incerto do Acordo de Paz

O orçamento destinado à implementação do acordo para o próximo ano foi reduzido em 37% em comparação com 2026, conforme informações sobre o plano orçamentário. Essa medida levanta preocupações sobre o compromisso financeiro com a paz.

Apesar dos desafios, alguns especialistas mantêm um otimismo cauteloso. Suárez lembra que cerca de 50% dos processos de paz fracassam cinco anos após a assinatura. No caso da Colômbia, mesmo após uma década e com a persistência da violência, não se pode afirmar que a paz com as Farc fracassou completamente. A jornada é complexa e exige persistência para que os compromissos se tornem realidade tangível para todas as vítimas do conflito.

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