Sustentabilidade no Mercado Imobiliário: Desvendando o Valor Real e os Benefícios Tangíveis para Todos os Envolvidos
Por muito tempo, a sustentabilidade no setor imobiliário foi vista principalmente como um selo ou um argumento de marketing. No entanto, a realidade é que as práticas sustentáveis já estão gerando valor concreto em diversas etapas do negócio, desde a concepção do projeto até a operação do imóvel. Para quem compra, a grande questão é entender como essa abordagem se traduz em ganhos práticos, seja no preço, nos custos de manutenção ou na valorização do patrimônio.
Relatórios de sustentabilidade de construtoras e incorporadoras revelam que as soluções ambientais já demonstram efeitos econômicos significativos. Essas informações, cada vez mais detalhadas, permitem avaliar os impactos ambientais, sociais e de governança das empresas, além de suas metas e iniciativas. Conforme informações divulgadas pelas próprias companhias, as soluções voltadas para construções mais sustentáveis estão sendo empregadas e gerando resultados mensuráveis.
A forma como esses ganhos se manifestam pode variar. Em alguns casos, a sustentabilidade permite otimizar o uso do terreno, possibilitando a construção de mais unidades. Em outros, o foco está na redução dos custos de produção ou de operação. Há também situações em que o ganho ainda é uma estimativa de projeto, sem comprovação de quanto efetivamente se converteu em economia para o comprador. A seguir, exploramos como essa transformação está acontecendo no mercado imobiliário.
O Impacto das Certificações e o Ganho de Área Construída
Um exemplo notável de como a sustentabilidade gera valor real vem da Cyrela. A empresa conseguiu erguer três pavimentos adicionais em dois edifícios em Porto Alegre, Félix Moinhos e Skyline Menino Deus, ao obter a classificação Diamante do Certificado de Sustentabilidade municipal. Este certificado reconhece empreendimentos com amplos critérios ambientais, como eficiência energética e gestão de resíduos.
O resultado para a Cyrela foi um aumento no potencial construtivo dos terrenos, o que representou uma área adicional equivalente a R$ 55 milhões em Valor Geral de Vendas (VGV). Para o morador, a vantagem direta é o desconto de 10% no IPTU do imóvel, conforme as regras municipais. Este caso ilustra como a adoção de práticas sustentáveis pode se traduzir em benefícios econômicos tangíveis tanto para a incorporadora quanto para o futuro proprietário.
Redução de Custos Operacionais e Eficiência Energética
A economia gerada pela sustentabilidade muitas vezes se manifesta nas despesas do dia a dia. Incorporadoras relatam o uso de soluções como redutores de vazão, bacias com duplo acionamento, iluminação LED, medição individualizada de água, sensores de presença e reservatórios para água de chuva e reuso. A Cury, por exemplo, informa que 100% de seus empreendimentos possuem redutores de vazão e bacias com duplo acionamento, além de iluminação LED e elevadores de baixo consumo nas áreas comuns.
No Condomínio Candeeiro, no Rio de Janeiro, a Cury substituiu chuveiros elétricos por aquecimento a gás, uma medida que visa reduzir o consumo de energia. A MRV, em seu relatório, também cita descargas inteligentes e redutores de vazão. A Direcional lista medidores individuais de água, bacias com duplo acionamento e sensores de presença. A Tenda menciona iluminação LED nas áreas comuns. Essas iniciativas buscam, na prática, diminuir as despesas de condomínio e o consumo individual dos moradores.
Financiamento Verde e Incentivos Fiscais
O financiamento da produção de imóveis também pode ser impactado positivamente pela sustentabilidade. O Selo Casa Azul + Caixa, por exemplo, pode estar associado a condições diferenciadas de crédito para a construção. Além disso, o financiamento à produção, que cobre os custos da obra para a incorporadora, pode se tornar mais barato. Uma simulação apresentada por especialistas indica que uma redução de 2% na taxa de juros pode gerar uma economia de R$ 1,28 milhão ao ano em um financiamento de R$ 64 milhões.
Outro mecanismo importante é o IPTU Verde, um programa presente em mais de 50 municípios brasileiros que oferece benefícios fiscais para empreendimentos sustentáveis. Cidades como São Paulo, Salvador e Rio de Janeiro concedem descontos no imposto para edificações que comprovam a adoção de medidas como uso de energia solar, captação de chuva e materiais de baixo impacto. Em alguns casos, esse benefício fiscal se estende ao incorporador desde o registro da incorporação, reduzindo despesas iniciais.
Métodos Construtivos Sustentáveis e Valorização Futura
A sustentabilidade também se manifesta na forma como o imóvel é projetado e construído. A Tenda, por exemplo, utiliza a construção industrializada com sua marca Alea, onde 60% da casa é produzida em fábrica, reduzindo o uso de mão de obra no canteiro. Um estudo apontou que uma casa Alea emite cerca de 60% menos que uma construção de alvenaria convencional. A Direcional informa redução de até 40% no tempo de obra com o uso de paredes de concreto e fôrmas de alumínio.
Na Cyrela, o método “lean construction” resultou em uma redução de 20% no ciclo da alvenaria estrutural, associado a um custo evitado de R$ 12 milhões pela mitigação de risco de prazo. Além disso, 72% do entulho das obras foi reciclado ou reutilizado. Um estudo da Brain Inteligência Estratégica indica que 66% dos entrevistados acreditam que imóveis sustentáveis terão maior valorização no futuro, percentual que sobe entre os mais escolarizados e com maior renda. A sustentabilidade, portanto, se consolida como um fator de agregação de valor real e duradouro no mercado imobiliário.





