Jovens franceses ocupam as ruas em protesto contra precariedade no ensino e repressão policial
Centenas de estudantes de Sciences Po em Paris, assim como milhares em toda a França, têm se manifestado pacificamente em busca de melhores condições de estudo e contra a violência policial. O movimento, iniciado no final de setembro, ganhou nova dimensão com a participação de mais de 450 mil jovens.
As reivindicações começaram em liceus, com queixas sobre a falta de professores, infraestrutura precária e currículos sobrecarregados. Logo, os universitários se uniram, ampliando a pauta para exigir mais bolsas de estudo, auxílio-moradia e o fim do sistema de seleção atual.
A reportagem, baseada em relatos de participantes, detalha as demandas estudantis e a resposta governamental, que tem sido marcada pela repressão policial. O movimento busca visibilidade e ações concretas, rejeitando tentativas de descredibilização.
Origens do Movimento Estudantil: Da Precariedade Escolar às Lutas Universitárias
O movimento estudantil na França teve seu estopim em bloqueios de liceus, motivados por condições de ensino precárias. A falta de professores, prédios em mau estado e a inadequação às mudanças climáticas foram pontos de partida para a mobilização.
Posteriormente, estudantes universitários aderiram à causa, ampliando o leque de reivindicações. Entre as principais demandas estão o aumento das bolsas de estudo e do auxílio-moradia, a construção de novos alojamentos e a criação de vagas universitárias para todos, com o fim do sistema de seleção vigente.
Reivindicações Econômicas e a Luta por Igualdade
Um dos pontos centrais do protesto é a demanda por mais verba para os restaurantes universitários. Estes locais têm sofrido com a superlotação desde que o governo baixou o preço das refeições para 1 euro, sem, no entanto, expandir a estrutura para atender ao aumento da demanda.
Outra pauta importante é a isonomia para alunos não europeus. O governo francês retirou o auxílio-moradia desses estudantes e multiplicou por dezesseis o valor da anuidade nas universidades, uma medida que gerou grande insatisfação e é vista como discriminatória.
Repressão Policial e Resposta Governamental
A resposta do governo francês, liderado pelo primeiro-ministro Sébastien Lecornu, tem sido marcada pela repressão policial. O ministro do Interior, Laurent Nuñez, optou por uma abordagem de força, com o uso de cassetetes e gás lacrimogêneo, o que gerou choque e indignação entre pais e professores.
Um caso chocante foi o de um estudante de 15 anos em Lens, que teve a mão esquerda amputada após ser atingido por uma “granada de atordoamento”, arma considerada inadequada para ser usada contra adolescentes. Essa ação governamental contrasta com a passividade observada em relação aos agricultores, simpatizantes da extrema direita, que em 2024 e 2025 fecharam estradas por todo o país.
Tentativas de Desmobilização e a Persistência do Movimento
Em uma tentativa de esvaziar o movimento, o governo decretou um “dia e meio de diálogo” nas escolas e lançou um site para receber reclamações estudantis. No entanto, o principal sindicato de diretores de escola já anunciou que se recusa a organizar esses debates, demonstrando apoio à causa estudantil.
Os estudantes afirmam que não querem ser enganados com conversas vazias, mas sim que o governo anuncie medidas emergenciais e libere o orçamento necessário. A acusação de que o movimento seria manipulado por Jean-Luc Mélenchon, líder do partido A França Insubmissa, é refutada pelos estudantes, que afirmam que o apoio de Mélenchon se deve ao alinhamento com suas reivindicações.
Políticos como Mélenchon e o prefeito de Saint-Denis, Bally Bagayoko, estiveram presentes nas manifestações, chegando a se interpor fisicamente para proteger os estudantes da polícia. Contudo, os estudantes ressaltam que os sindicatos estudantis não são comandados por partidos, e que é o governo quem tenta politizar a questão para descredibilizar um movimento espontâneo.
Um Movimento de Ampla Insatisfação e Falta de Perspectivas
O movimento atual na França é descrito como espontâneo, fruto de uma insatisfação crescente e de uma época marcada pela ameaça de perda de direitos e pela falta de perspectiva de futuro para a juventude. O protesto é apoiado por estudantes de diversos países, inclusive do Brasil, através do site 10mesures.fr.
No contexto francês, o movimento é visto como um reflexo de quase uma década de políticas antissociais sob a presidência de Emmanuel Macron, que estariam visando sucatear as universidades e escolas, marginalizando jovens que não têm acesso às instituições de elite. Os estudantes reafirmam que a violência policial não os impedirá de lutar por seus direitos.





