Nobel da Paz 2026: Navi Pillay expõe dilema entre saber de genocídio e agir politicamente
A jurista sul-africana Navi Pillay, laureada com o Nobel da Paz de 2026, lança um poderoso alerta sobre a inação diante de atrocidades. Sua frase “Não fazer nada não é neutralidade. É cumplicidade” ressoa com força, especialmente após a divulgação de um relatório da ONU que acusa Israel de cometer genocídio contra palestinos em Gaza.
Pillay, com uma trajetória marcada pela luta contra a injustiça, desde o apartheid em sua terra natal até os tribunais internacionais, questiona a responsabilidade daqueles que, cientes da violência e com poder para intervir, optam por não agir. Sua crítica atinge em cheio a comunidade internacional e seus líderes políticos.
O relatório da comissão da ONU, presidida por Pillay, detalha que Israel cometeu quatro dos cinco atos de genocídio definidos pela Convenção de 1948. As evidências incluem assassinatos, danos físicos e mentais graves, imposição de condições de vida destinadas à destruição do povo palestino e medidas para impedir nascimentos. Conforme divulgado pelo New York Times em 16 de setembro de 2025, a destruição de uma clínica de fertilização em Gaza, com milhares de embriões, é citada como uma das provas contundentes.
A Luta de Navi Pillay Contra a Injustiça e o Genocídio
Nascida na África do Sul sob o regime do apartheid, Navi Pillay enfrentou desde cedo a segregação racial. Sua formação em direito, iniciada em 1967, foi dedicada à defesa de presos políticos. Sua carreira ascendeu quando, em 1995, tornou-se juíza do Tribunal Superior sul-africano e, no mesmo ano, integrou o Tribunal Penal Internacional para Ruanda.
No tribunal de Ruanda, Pillay contribuiu para um marco histórico ao reconhecer o estupro como um ato de genocídio. Essa decisão transformou a percepção da violência sexual, passando de mera consequência da guerra para um instrumento deliberado de destruição de um grupo étnico ou religioso.
O Direito como Arma Dupla: Opressão e Libertação
A trajetória de Navi Pillay expõe a natureza paradoxal do direito. As mesmas leis que sustentaram o apartheid, sistema ao qual ela mesma foi submetida, tornaram-se, décadas depois, instrumentos para responsabilizar autores de genocídios, como em Ruanda, e para investigar crimes em Gaza. O direito, portanto, pode tanto legitimar a opressão quanto servir como ferramenta para combatê-la.
Pillay dedicou sua vida a tornar juridicamente inegáveis as violências que interesses políticos buscam relativizar. No entanto, ela ressalta que documentar a violência não é o mesmo que interrompê-la. O reconhecimento de direitos, por si só, não garante o seu exercício pleno.
A Cumplicidade do Mundo Diante do Genocídio
A frase de Navi Pillay, publicada no New York Times, dirige-se a todos que possuem o conhecimento da violência, dispõem dos meios para agir e, ainda assim, escolhem a inação. O mundo tem conhecimento das atrocidades, mas, segundo a jurista, não tem feito o suficiente para deter as políticas de extermínio dirigidas àqueles considerados “outros”.
A análise de Sueli Carneiro, em “Dispositivo de Racialidade”, ilumina a seletividade na aplicação dos direitos humanos. As hierarquias raciais e coloniais históricas, aliadas a interesses militares, econômicos e diplomáticos, determinam quais vidas mobilizam a urgência de proteção. O conhecimento da violência, por si só, não é suficiente para romper essa estrutura de poder.
O Desafio da Ação Política Contra a Morte Programada
A comissão de Pillay concluiu que Israel cometeu atos de genocídio em Gaza, uma acusação grave que Israel rejeita. É importante notar que essa conclusão não equivale a uma sentença da Corte Internacional de Justiça, mas representa um forte posicionamento internacional. A questão central permanece: o conhecimento do genocídio se traduzirá em ação política eficaz?
A frase “Não fazer nada não é neutralidade. É cumplicidade” ecoa como um chamado à ação. O Nobel da Paz de 2026 para Navi Pillay sublinha a urgência em superar a lacuna entre o saber sobre genocídios e a decisão política de impedi-los, antes que mais vidas sejam tragadas por políticas de morte.





