Chanceler uruguaio critica governo venezuelano e alerta para interferência externa nas eleições brasileiras
Em um cenário regional cada vez mais complexo, o Uruguai, sob a liderança de Mario Lubetkin, ministro das Relações Exteriores, tem se posicionado como um observador atento dos desafios da América Latina e Caribe. O país, que ocupa a presidência temporária do Mercosul e a liderança da Celac, expressou opiniões contundentes sobre a situação política em países como a Venezuela e as eleições no Brasil.
Lubetkin afirmou que não há expectativa de retomada das relações diplomáticas com Caracas enquanto Delcy Rodríguez estiver no poder, classificando-a como “tão ilegítima quanto Maduro”. A declaração reforça a posição do Uruguai em relação à crise política e democrática na Venezuela, exigindo eleições livres e transparentes.
Além disso, o chanceler uruguaio levantou preocupações sobre a possibilidade de interferência externa nas eleições brasileiras, um tema de grande relevância para a estabilidade regional. As declarações foram feitas à reportagem em Nova York, à margem da Assembleia Geral da ONU, conforme divulgado pela Folha de S.Paulo.
Integração Regional e Segurança: O Papel do Uruguai
Mario Lubetkin destacou a importância da unidade regional para o combate ao crime organizado, ressaltando que, apesar de o Uruguai não ter sido convidado para o “Escudo das Américas”, iniciativa liderada pelos Estados Unidos, o país participa ativamente de outros mecanismos de segurança regional, como o Compromisso de Santiago. Este compromisso, iniciado pelo Chile, reúne sete países sul-americanos e busca estabelecer bases conjuntas para o trabalho de segurança na região.
“A discussão não é “segurança sim ou segurança não”, mas quais organismos farão essa articulação”, explicou Lubetkin, enfatizando a preferência uruguaia pela integração e ação conjunta com os países vizinhos. Ele também avaliou as ações dos Estados Unidos na região como pouco claras, preferindo focar nas estratégias que o próprio Uruguai e seus parceiros regionais podem implementar.
Posicionamento sobre a Venezuela e Eleições no Brasil
Sobre a Venezuela, Lubetkin foi categórico: “De forma alguma, e não vamos retomá-las”. Ele reiterou que a solução para a crise venezuelana passa pela realização de eleições democráticas, com resultados confirmados por uma corte independente, para que se possa estabelecer relações diplomáticas com o legítimo vencedor. A atual liderança de Delcy Rodríguez é vista como uma continuação da ilegitimidade de Maduro.
Em relação às eleições brasileiras, o chanceler uruguaio expressou o desejo de que o processo seja “limpo, transparente, democrático e sereno”. Ele afirmou que o Uruguai trabalhará com quem quer que vença, como política de Estado. No entanto, alertou para a possibilidade de interferência externa, especialmente tecnológica, e a necessidade de estar “muito atento” a essa questão.
Mercosul e a Impraticabilidade de Saídas Eleitorais
Abordando a proposta de Flávio Bolsonaro, senador e principal concorrente de Lula, de abandonar o Mercosul, Lubetkin considera a ideia impraticável. “Primeiro, não é fácil sair do Mercosul”, disse, explicando que os acordos interligados e os mecanismos existentes dentro do bloco causariam perdas significativas para a economia brasileira.
“Espero que, se couber a esse senhor presidir o Brasil, quando começar a governar ele perceba que muitas declarações feitas durante a campanha eleitoral são impraticáveis quando se assume o governo”, ponderou o ministro. Ele acredita que o Brasil, ao se isolar, se tornaria “mais fraco” e que os brasileiros “sabem calcular e avaliar isso”.
Cuba e o Acordo Mercosul-União Europeia
Lubetkin também comentou a situação em Cuba, definindo-a como “o momento mais grave”. Ele defendeu um diálogo franco entre os EUA e Cuba, e também dentro da sociedade cubana, para que o país possa projetar seu futuro. O Uruguai, segundo ele, está disposto a ajudar, caso seja solicitado, enviando suprimentos como leite em pó e painéis solares.
Quanto ao acordo Mercosul-União Europeia, o chanceler uruguaio confirmou que ele está em funcionamento, com benefícios econômicos já visíveis para o Uruguai. Ele estima que o país economizará mais de US$ 35 milhões anualmente com a redução de tarifas e cotas. Lubetkin prevê que a ratificação completa pelo Parlamento Europeu levará tempo, mas o acordo operará em caráter provisório por um período considerável.
Mario Lubetkin, 66 anos, é o atual ministro das Relações Exteriores do Uruguai. Jornalista de formação, ele também atuou como representante para a América Latina e o Caribe na FAO, a Organização da ONU para Alimentação e Agricultura, de 2022 a 2025.





