Havan: A Saga de Crescimento Contra o “Estado Hostil” e a Alta Carga Tributária Brasileira
Em um cenário de desafios para o empreendedorismo no Brasil, a Havan, fundada por Luciano Hang, emerge como um exemplo de resiliência e expansão. A rede varejista, que iniciou em 1986 com uma modesta loja de 45 metros quadrados em Brusque (SC), completa 40 anos em junho com quase 200 unidades e projeção de faturamento de R$ 22 bilhões.
A trajetória de sucesso da Havan é marcada pelo espírito empreendedor de seu fundador, que enfrentou um ambiente de negócios considerado hostil, com alta carga tributária e burocracia excessiva. A empresa, que em 2026 deve recolher cerca de R$ 6 bilhões em tributos, demonstra como é possível prosperar mesmo diante de obstáculos significativos impostos pelo Estado brasileiro.
Esta matéria faz parte da série “Apesar do Estado”, da Gazeta do Povo, que retrata empresários que superaram as dificuldades de empreender no Brasil. Acompanhe os detalhes da jornada de Luciano Hang e da Havan, uma história de determinação e visão de futuro, conforme divulgado pelas fontes consultadas.
O “DNA Catarinense” que Construiu um Gigante do Varejo
Luciano Hang, filho de operários da indústria têxtil catarinense e diagnosticado tardiamente com dislexia, começou sua jornada empreendedora vendendo bolachas na escola. Aos 16 anos, já estava no mundo do trabalho, passando por diversas experiências no setor têxtil antes de fundar, em 1986, a Havan ao lado de Vanderlei de Limas. A sociedade evoluiu, e Hang assumiu o controle total da empresa, expandindo-a significativamente.
A primeira filial fora de Brusque foi aberta em Curitiba em 1995, adotando a icônica fachada branca inspirada na Casa Branca, ideia que surgiu após uma viagem de Hang aos Estados Unidos. Atualmente, a Havan conta com 196 unidades em 23 estados, com a meta de atingir 200 megalojas até o fim de dezembro, presente em todos os 27 estados brasileiros e com cerca de 25 mil colaboradores.
Burocracia: Um Obstáculo Crônico na Trajetória da Havan
Para Luciano Hang, a burocracia é um dos maiores entraves ao setor produtivo do país, um desafio constante desde a fundação da Havan. Ele relata casos em que a obtenção de alvarás e licenças para funcionamento de unidades levou anos, como uma loja que demorou 22 anos para conseguir todas as autorizações necessárias.
Um exemplo citado é um terreno de 30 mil metros quadrados em Matinhos (PR), destinado a uma megaloja com cinema e praça de alimentação, que permanece parado há quatro anos devido a impasses com o Instituto Água e Terra (IAT) e o Ministério Público. Hang atribui esses atrasos à falta de agilidade e à resistência ao crescimento, afirmando que “lamentavelmente não deixam o Brasil crescer”.
A capital paulista, maior mercado consumidor do país, ainda não possui uma loja Havan, o que o empresário atribui à burocracia municipal. Apesar disso, o estado de São Paulo conta com 36 unidades da rede, um número que empata com o Paraná.
Carga Tributária Elevada: Impostos Superam Lucro e Gastos com Fornecedores
A carga tributária é um dos pontos mais críticos para a Havan. Em 2024, a empresa pagou R$ 4 bilhões em tributos, com a projeção de R$ 5 bilhões para 2025 e quase R$ 6 bilhões para 2026. Segundo Luciano Hang, a rede recolhe cerca de 30% do faturamento em tributos, um valor que supera o lucro líquido projetado.
“O imposto é o maior gasto. É maior do que o lucro, é maior do que os fornecedores”, declarou o empresário. A reforma tributária em andamento, com a implementação do Imposto sobre Bens e Serviços (IBS) e Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS), prevê alíquotas que podem chegar a 28%, entre as mais altas do mundo.
Hang também criticou a isenção do Imposto de Importação para compras internacionais de até US$ 50, argumentando que cria uma concorrência desleal com o varejo nacional, cuja carga tributária pode chegar a 120%. “Se o imposto é zero para o estrangeiro, queremos imposto zero para o brasileiro também”, questionou.
Expansão Contínua em um Varejo em Crise
Enquanto outras grandes redes varejistas enfrentam dificuldades, com recorde de pedidos de recuperação judicial e fechamento de lojas, a Havan segue em sentido oposto. Para 2026, a rede planeja a abertura de 15 novas unidades e um investimento de R$ 1,2 bilhão em expansão.
Analistas do Banco Safra apontam que a Havan mantém margens acima da média do setor, um desempenho atribuído ao seu mix de produtos e ao modelo de megaloja. Luciano Hang reafirma sua crença no potencial de crescimento no Brasil, com a meta de atingir 300 unidades, focando em cidades médias e regionais, com especial atenção para as regiões Nordeste e Norte.
Apesar das propostas para expandir internacionalmente, a empresa mantém o foco no mercado brasileiro. A sucessão familiar, com dois dos três filhos de Hang já atuando na operação, é um tema que o fundador prefere não discutir publicamente. Aos 63 anos, Luciano Hang continua dedicado a expandir a Havan, buscando “zerar o mapa” de presença da rede em todo o país.





