A Guerra Vista de um Buraco: O Testemunho de Eli Sharabi Após 491 Dias como Refém do Hamas em Gaza
A guerra, com suas explosões e incertezas, é contada de uma perspectiva inimaginável: o fundo de um túnel em Gaza. Eli Sharabi, um israelense arrancado de sua casa em 7 de outubro de 2023, viveu 491 dias como refém do Hamas, uma experiência que ele agora relata no livro “Refém”.
Durante seu cativeiro, a guerra era um som distante, fragmentos de informação trazidos pelos captores ou ouvidos em meio ao medo constante. A vida se resumia à escuridão, ao pouco oxigênio e à esperança de um pequeno alívio, como a descoberta de uma garrafa de Fanta, um verdadeiro tesouro em meio ao desespero.
O livro “Refém” oferece um olhar íntimo sobre a resiliência humana em condições extremas, onde um gole de refrigerante pode representar um momento de alegria em um universo de medo e ansiedade. A obra, escrita com a urgência de quem precisa processar uma experiência traumática, é um testemunho poderoso da guerra e suas consequências devastadoras. Conforme relatado por Sharabi, a informação sobre o destino de sua família só chegou após sua libertação.
A Sobrevivência em Meio ao Medo e à Escuridão
Os túneis do Hamas, palco principal do cativeiro de Sharabi, eram um ambiente hostil. Com pouca ventilação, escuridão constante e odores insuportáveis, os dias eram marcados pela fome e pela acorrentamento. Os reféns, incluindo Sharabi, alimentavam-se de pão pita e, ocasionalmente, de sopas ou macarrão, em um ciclo de privações que o fazia mal reconhecer o próprio reflexo no espelho.
A precisão com que Sharabi descreve esses detalhes confere ao livro uma força impressionante. A narrativa prende o leitor, que compartilha da urgência de esperar por uma porta que se abre ou por uma notícia do mundo exterior. A monotonia do cativeiro, onde dias de fome, medo e espera se tornam indistinguíveis, é retratada de forma crua, mas o ritmo da narrativa logo retorna com a intensidade da luta pela sobrevivência.
A Dinâmica do Cativeiro e os Conflitos Internos
Sendo o mais velho entre os prisioneiros, Sharabi assumiu um papel de liderança, tentando organizar a convivência, acalmar os mais vulneráveis e evitar que o desespero tomasse conta do grupo. No entanto, nem sempre obteve sucesso. Disputas por comida e espaço para dormir eram frequentes, e em um momento, quatro prisioneiros chegaram a se separar em grupos rivais por motivos triviais, evidenciando a dificuldade de manter a união em circunstâncias tão extremas.
“Formamos partidos”, escreve Sharabi, expressando seu espanto com a capacidade humana de se dividir mesmo em condições impossíveis. Essa constatação, embora tingida de humor, não traz alívio, pois os captores mantinham o controle total sobre a alimentação, os movimentos e a informação, utilizando os reféns como moeda de troca.
A Busca pela Verdade e a Reconstrução da Vida
A escrita de “Refém” pouco depois de sua libertação reflete a urgência de Sharabi em registrar sua experiência, um processo que ele descreve como uma forma de terapia. Embora tenha pensado que sua esposa e filhas poderiam ter morrido no ataque de 7 de outubro, ele precisava sair de Gaza para confirmar. A verdade, dolorosamente, foi revelada após sua libertação em fevereiro de 2025: Lianne, Noiya e Yahel foram assassinadas naquele dia fatídico.
O leitor de “Refém” já conhece essa trágica realidade desde as primeiras páginas, enquanto Sharabi precisou viver 491 dias de cativeiro para descobri-la. A obra é um testemunho pungente da capacidade humana de resistir, da complexidade da guerra e da busca incessante pela verdade, mesmo quando essa verdade é devastadora. Ele hoje tenta reconstruir uma vida, mas não pretende retornar ao kibutz.
A Esperança em Meio ao Desespero
Durante os 491 dias de cativeiro, Sharabi agarrou-se à possibilidade de que sua família pudesse estar viva. Essa esperança, mesmo que tênue, foi um motor para sua sobrevivência. A descoberta de que sua esposa e filhas haviam sido assassinadas no ataque inicial foi um golpe devastador, mas também marcou o fim de um período de incerteza.
O relato de Sharabi em “Refém” é um lembrete poderoso do custo humano da guerra e da importância de dar voz às vítimas. A simplicidade de um refrigerante em um túnel escuro se torna um símbolo da necessidade humana por pequenos prazeres e esperança, mesmo nas circunstâncias mais sombrias. No túnel, a prioridade era sobreviver, a reconstrução da vida era um sonho distante.





