Na “zona da morte”, cidade da Ucrânia é ameaçada pela fome durante a guerra
Poucas notícias chegam de Oleshki, uma cidade ucraniana isolada na linha de frente, controlada pela Rússia e cercada por minas e drones. O que emerge, no entanto, pinta um quadro sombrio de uma calamidade humanitária iminente. A população civil, estimada em cerca de 2.000 pessoas, incluindo 40 crianças, enfrenta a escassez severa de alimentos, a falta de segurança e a impossibilidade de fuga.
Moradores descrevem um cenário apocalíptico, com relatos de fome extrema e a dificuldade em preparar refeições básicas. Mensagens enviadas a parentes e autoridades revelam a deterioração das condições, com a ausência de qualquer tipo de suprimento e um bloqueio total, agravado por drones e incêndios constantes, comparado a um filme de terror.
Esses testemunhos, compartilhados com o The New York Times por Tetiana Hasanenko, política local no exílio, destacam a gravidade da situação e os apelos urgentes por uma retirada segura da população civil. A cidade se tornou um símbolo da insolúvel natureza do conflito, onde a falta de trégua impede a criação de corredores humanitários essenciais para salvar vidas.
Oleshki: Um Ponto Estratégico e um Caldeirão de Crise Humanitária
Localizada na margem oposta do rio Dnipro em relação a Kherson, Oleshki se encontra diretamente na linha de fogo. As forças russas utilizam a cidade como base para atacar Kherson, enquanto as tropas ucranianas bombardeiam Oleshki a partir da outra margem. Essa posição estratégica a torna um campo de batalha constante, dificultando ainda mais a vida dos civis.
As condições em Oleshki são descritas como algumas das piores em toda a Ucrânia. Enxames de drones, a presença generalizada de minas terrestres e a infraestrutura destruída criam um ambiente extremamente perigoso, que impede tanto a saída de moradores quanto a chegada de ajuda humanitária.
Acusações Mútuas e a Fome como Arma
Autoridades ucranianas acusam a Rússia de ser a principal responsável pela crise humanitária. Segundo elas, as forças russas teriam atacado drones ucranianos que tentavam entregar ajuda, intimidado moradores que buscavam suprimentos e confiscado alimentos. A Ucrânia alega que a fome está sendo usada como um instrumento de coerção pela Rússia.
Além disso, a Ucrânia afirma que a Rússia mantém os moradores como escudos humanos, temendo que a saída dos civis permita que as forças ucranianas avancem e reconquistem a cidade. Essa tática, segundo relatos, visa impedir a derrota russa em Oleshki.
O ministro das Relações Exteriores da Ucrânia, Andrii Sibiha, apelou às Nações Unidas e ao Comitê Internacional da Cruz Vermelha para encontrarem uma forma de retirar os civis em segurança, destacando que a ajuda humanitária não deveria ser entregue sob ataque.
Desespero e a Luta pela Sobrevivência em Meio ao Caos
O Kremlin, em resposta, reconheceu uma “verdadeira catástrofe humanitária” em Oleshki, mas culpou a Ucrânia, alegando que as Forças Armadas ucranianas impedem a saída de pessoas e interrompem as entregas de suprimentos com drones. Essa troca de acusações não resolve a situação desesperadora dos habitantes.
A última entrega de alimentos por estrada ocorreu em 26 de maio, segundo Hasanenko, após vários motoristas terem sido mortos. Tentativas da Ucrânia de enviar suprimentos por drones foram parcialmente interceptadas pela Rússia. Moradores, muitos idosos, lutam para sobreviver com acesso mínimo a água potável, atendimento médico, eletricidade, gás ou aquecimento.
Relatos e imagens de drones retratam Oleshki, antes uma cidade turística próspera com mais de 20 mil habitantes, como um cenário desolador. Prédios destruídos, carros incendiados, corpos nas ruas e até cães famintos devorando restos mortais compõem o cenário dantesco. Pessoas que conseguiram fugir relatam o medo constante e a perda de esperança, descrevendo a situação como um “apocalipse”.
A situação se agravou após uma catastrófica inundação em 2023, causada pela explosão de uma barragem próxima. A vida em Oleshki tornou-se ainda mais perigosa com drones sobrevoando a cidade constantemente, transformando qualquer saída à rua em uma aposta mortal. A estrada para fora da cidade ficou ainda mais arriscada, com entregas e retiradas frequentemente canceladas ou adiadas devido a minas e ataques de drones.
Moradores, como Oleksandr e sua esposa, relatam jornadas de fuga aterrorizantes, onde tiveram que saltar de veículos sob a ameaça de drones armados, implorando por suas vidas. A morte de amigos em um ataque a um veículo que transportava alimentos marcou o fim das entregas por estrada, deixando os que permanecem em Oleshki à mercê da escassez e do perigo constante.





