Stellantis alerta sobre risco de empregos na indústria automotiva brasileira devido a modelos de produção com kits importados.
A expansão de montadoras chinesas no Brasil levanta sérias preocupações sobre o futuro da produção automotiva nacional. O debate central gira em torno do grau de fabricação dos veículos em território brasileiro, com modelos que transferem parte do processo produtivo para o exterior, impactando diretamente a geração de empregos e a demanda por fornecedores locais.
Herlander Zola, presidente da Stellantis para América Latina, declarou recentemente que o modelo de produção conhecido como knocked-down, onde veículos são parcialmente montados no exterior e finalizados no Brasil, pode colocar em risco até 90% dos empregos automotivos na região. Essa projeção assusta o setor e acende um alerta sobre a necessidade de um debate profundo sobre o tema.
A declaração de Zola, feita em São Paulo no dia 7 de outubro, sugere que, se a Stellantis adotassem integralmente esse modelo de pré-montagem, precisariam de apenas 10% dos seus atuais 35 mil funcionários na América do Sul. Segundo informações da BBC News Brasil, a BYD, por exemplo, já produziu mais de 100 mil veículos apenas na sua fábrica de Camaçari, na Bahia, utilizando kits importados.
Entenda os modelos SKD e CKD e seus impactos na produção nacional.
Os sistemas SKD (Semi Knocked Down) e CKD (Completely Knocked Down) definem o nível de montagem realizada no Brasil. No SKD, o veículo chega ao país parcialmente montado, e a fábrica local completa as etapas finais. Já no CKD, os componentes chegam completamente desmontados, sendo montados no Brasil.
O grau de trabalho local varia significativamente entre esses modelos. Uma fábrica que recebe kits semimontados pode gerar empregos em montagem final, logística e controle de qualidade. No entanto, se etapas cruciais como estamparia, soldagem da carroceria, pintura e fabricação de componentes permanecem concentradas no exterior, o impacto na cadeia industrial brasileira é consideravelmente menor.
Incentivos fiscais para kits importados e a posição do governo.
A política tributária brasileira tem um papel crucial nessa discussão. Em junho deste ano, o governo prorrogou por mais seis meses, a partir de julho, uma cota de US$ 463 milhões para a importação de veículos eletrificados desmontados ou semidesmontados com alíquota zero de Imposto de Importação. Essa medida, segundo a reportagem, beneficia diretamente o modelo de produção adotado pela BYD e outras montadoras chinesas.
A diferença de tratamento tributário entre veículos prontos importados e kits para montagem local pode influenciar as decisões de investimento das empresas. Montadoras com estruturas industriais mais completas argumentam que essa dinâmica pode criar condições de concorrência desiguais, especialmente quando a importação de kits não é acompanhada por uma expansão equivalente das etapas produtivas no Brasil.
Por outro lado, o governo defende que esses incentivos fazem parte de uma estratégia para atrair investimentos e estimular a eletrificação da frota brasileira, visando um futuro mais sustentável.
Crescente interesse por eletrificados impulsiona marcas chinesas.
A chegada e o avanço das marcas chinesas no mercado brasileiro coincidem com um notável aumento no interesse dos consumidores por carros eletrificados e híbridos. Dados do Google Trends nos últimos cinco anos no Brasil mostram essa tendência clara, com a busca por “carro a combustão” em níveis residuais.
Enquanto a categoria de veículos eletrificados apresentou um crescimento expressivo, atingindo o pico de 100% do interesse de busca em projeções até 2026, a procura por modelos híbridos manteve um patamar secundário, chegando a 18% do volume do pico. Essa mudança no comportamento do consumidor é um fator chave para o sucesso das novas marcas no país.
Essa parceria com o Google, que apoia projetos jornalísticos baseados em dados do Google Trends, ressalta a importância de analisar as tendências de mercado e o impacto das novas tecnologias na indústria automotiva brasileira. A apuração e responsabilidade editorial são exclusivas da Gazeta do Povo.





