Geração Z europeia ecoa protestos asiáticos em manifestações massivas por moradia e educação acessível
Estudantes franceses protestam: “Eu deveria estar preocupado com o exame de matemática, não com o meu futuro”, declaram, em meio a manifestações que se tornaram caóticas e violentas. A demanda por mais verbas para os estudos, e não para a repressão policial, ressoa em um continente cada vez mais mobilizado.
Após um rastro de protestos na Ásia, a geração Z europeia assume a linha de frente. Grandes manifestações e acampamentos estudantis se espalham pela Europa, unindo-se a outras demandas sociais e atraindo diversos setores da sociedade civil para as ruas.
Na Espanha, estudantes, professores e funcionários da Universidade Complutense de Madri paralisaram as atividades em busca de mais verbas e convocando greve. Essa mobilização se soma a um acampamento na Puerta del Sol, iniciado dias antes contra o aumento dos aluguéis, mostrando a forte conexão entre as pautas da juventude. Conforme informação divulgada nas fontes, “Vocês podem especular com relógios, joias, criptomoedas e Ferraris, mas não com as nossas casas”, afirmava um cartaz, evidenciando a preocupação com a crise imobiliária.
Madrid e Paris se tornam epicentros de protestos com pautas intergeracionais
Os protestos em Paris e Madri serviram de inspiração para outras cidades europeias. No Porto, Portugal, estudantes ergueram barracas em praça pública, ecoando o movimento espanhol. Lisboa também viu o surgimento de acampamentos similares. A tentativa de reinstalar barracas no Porto, após ordem de retirada, resultou em confronto com a polícia, deixando 37 feridos, segundo líderes do movimento. “Isto não é campismo, é um protesto, uma reivindicação política porque querem tornar o Porto um parque de atrações para turistas e as pessoas querem viver aqui”, declarou a ativista Sónia Quinche ao jornal O Público.
As mesmas causas, mais verbas para o ensino e melhores condições de moradia, motivaram jovens em Atenas, Grécia, que ocuparam a praça Syntagma em frente ao Parlamento grego. Inspirados pelas manifestações francesas, os jovens gregos demonstraram disposição em continuar os atos ao longo da semana. Em Madri, a identificação entre gerações ficou evidente. Jovens que enfrentam dificuldades para arcar com aluguéis crescentes se solidarizaram com o caso de Maricarmen Abascal, aposentada de 87 anos despejada por não conseguir pagar o aluguel. Conforme as fontes, os protestos na Puerta del Sol levaram os proprietários a reduzir o valor, mas tarde demais, pois a idosa faleceu antes de poder retornar à sua casa.
Crise educacional e repressão policial alimentam o descontentamento da geração Z
Em Paris, as queixas dos jovens vão além da questão imobiliária, focando nos cortes de professores e no envelhecimento dos métodos de ensino. Isso gera uma profunda incerteza quanto ao futuro profissional. O cientista político brasileiro Thomás Zicman de Barros, pesquisador-associado do Instituto de Estudos Políticos de Paris, comentou que “As angústias normais que atravessam a adolescência ganham outra dimensão quando você vê que, ainda por cima, o ensino que recebe não dá condições para enfrentar o mercado de trabalho”.
De Barros também ressalta a violência da repressão policial nas manifestações francesas. Mais de 6.000 pessoas foram detidas no país antes dos atos do fim de semana, com mais de 80% delas sendo menores de idade. “A prisão de adolescentes gerou uma onda de solidariedade em relação ao movimento, que o levou a conquistar adesões importantes”, pontua.
Movimentos independentes e o impacto na política tradicional
As manifestações ganharam o apoio de movimentos como os Coletes Amarelos e a CGT, a maior central sindical francesa, que declarou apoio aos estudantes, abrindo a perspectiva de uma greve geral em novembro. O sociólogo espanhol Roger Soler-i-Marti, da Universidade Pompeu Fabra, observa que o novo ativismo jovem integra vida cotidiana e atividade política, sendo mais motivado por experiências pessoais do que pela filiação a organizações tradicionais. Ele destacou que “Se o envolvimento político é cada vez mais ligado ao dia-a-dia e a experiências pessoais, é compreensível que novas gerações sintam dificuldade para se engajar com instituições que não refletem suas preocupações”.
Ainda é incerto o impacto desses movimentos, que se organizam fora das instituições tradicionais, na política. Espanha e França estão em plena campanha eleitoral. Na Espanha, os “decretos Maricarmen”, que visam mudar as regras de locação de imóveis, foram rejeitados pelo legislativo, levando o primeiro-ministro a dissolver o parlamento. Na França, os protestos podem favorecer a sigla França Insubmissa (LFI), segundo Zicman de Barros, especialmente se o movimento envolver trabalhadores e sindicatos, o que pode beneficiar a esquerda nas próximas eleições presidenciais.





