A misteriosa frase que ecoa nas ruas da França: “Bismillah, c’est les ténèbres” ganha força em protestos.
Centenas de milhares de pessoas tomaram as ruas da França em apoio a estudantes que protestavam contra a precariedade escolar. Em meio à multidão, um slogan peculiar chamou a atenção em cartazes de papelão: “Bismillah, c’est les ténèbres”.
A expressão, que combina a saudação islâmica “Em nome de Deus” com a frase francesa “é a escuridão”, pode parecer sem sentido à primeira vista. No entanto, ela rapidamente se tornou um símbolo de um conflito geracional e de descontentamento social.
Conforme divulgado pelo The New York Times, a origem da frase remonta ao aplicativo Snapchat. Um usuário, tentando acessar uma sala de bate-papo privada de organizadores de protestos, teria enviado a mensagem, seguida de um convite para “quebrar tudo”. A tentativa, percebida como desajeitada e imitativa da linguagem jovem, viralizou.
Polícia sob suspeita e o nascimento de um slogan sarcástico
A rápida disseminação da mensagem levou muitos jovens a suspeitar que ela teria sido enviada por policiais infiltrados no movimento estudantil. A falta de autenticidade na linguagem utilizada reforçou essa desconfiança.
Em resposta, os manifestantes adotaram “Bismillah, c’est les ténèbres” como um **slogan sarcástico**. A frase passou a zombar das tentativas das autoridades de minar a causa estudantil e a sufocar os protestos.
A expressão agora é vista como uma **síntese das tensões históricas** entre a polícia e os manifestantes, especialmente jovens de minorias étnicas e filhos de imigrantes. A dificuldade de comunicação e a percepção de preconceito por parte das autoridades se tornaram centrais na narrativa do protesto.
O Ministério do Interior da França, consultado pelo The New York Times, não confirmou se agentes usaram a expressão, mas admitiu que policiais podem assumir identidades falsas online para coletar informações sobre atividades ilegais durante manifestações.
Um grito geracional e a crítica à ineficácia governamental
Para os estudantes, a formulação da frase representa a **distância geracional** entre o movimento e um governo que, em grande parte, ignorou suas reivindicações. “Nenhum jovem fala assim”, destacou Sabrine Kharbach, porta-voz de uma organização estudantil francesa.
A frase se tornou uma forma de expressar que as tentativas de monitoramento e infiltração não passam despercebidas, reafirmando a **capacidade de organização dos jovens** independentemente dessas táticas. A linguagem imitada e falha é vista como um reflexo da **incompreensão das autoridades** sobre o universo juvenil.
Phèdre Quémener, um estudante de Paris, descreveu a expressão como uma “imitação péssima de um jovem”, que se tornou uma **piada nacional**. Ele também ressaltou o viés racista implícito, sugerindo que a depredação de propriedades é associada a jovens de origem árabe.
O fenômeno se espalha: da França para o mundo
O slogan “Bismillah, c’est les ténèbres” extrapolou as fronteiras francesas, aparecendo em manifestações na Bélgica e na Alemanha. A ativista ambiental Greta Thunberg também endossou a expressão em um vídeo de solidariedade ao movimento estudantil.
O uso desse slogan ecoa o **humor sombrio e a resiliência** observados em outros movimentos de protesto, como o das Baratas na Índia, onde estudantes se apropriaram de um insulto para nomear sua luta por um sistema educacional melhor.
As raízes da revolta estudantil
Os protestos estudantis, iniciados no mês passado, reivindicam **melhorias urgentes nas escolas francesas**: instalações deterioradas, falta de professores, turmas superlotadas e horários exaustivos.
Embora muitas manifestações tenham sido pacíficas, outras escalaram para a violência, com relatos de incêndios e saques em escolas, resultando em milhares de prisões. A resposta policial, por vezes considerada excessiva, incluindo casos de denúncias de má conduta e lesões graves em menores, acabou por **mobilizar ainda mais os manifestantes**.





