Ataques Aéreos na Rússia e Ucrânia Abalam Negociações de Paz em Meio a Tensão Crescente
Poucas horas após o anúncio de que negociações pela paz na Ucrânia seriam reabertas, as forças russas e ucranianas trocaram intensos ataques aéreos. As capitais de ambos os países foram alvos durante a madrugada desta quinta-feira (22), em um padrão que já se tornou familiar em momentos de aproximação diplomática.
Esses episódios de escalada de violência ocorrem quando conversas para um cessar-fogo estão sendo costuradas. Analistas sugerem que ambos os lados buscam demonstrar força perante mediadores internacionais, especialmente os americanos, antes de sentarem à mesa de negociação. A situação evidencia a complexidade e a desconfiança mútua que permeiam o conflito iniciado por Vladimir Putin em 2022.
A mais recente tentativa de mediação, liderada pelo governo de Donald Trump, ganhou força nesta semana. Na terça-feira (20), o negociador Steve Witkoff esteve em Oslo com o presidente ucraniano Volodimir Zelensky, viajando em seguida para São Petersburgo para um encontro com Putin. O líder russo teria aceitado reabrir negociações com a presença de americanos, um passo considerado significativo, conforme informações divulgadas pelo Financial Times.
Ataques Russos e Ucranianos em Meio à Diplomacia
Em meio às discussões diplomáticas, a Ucrânia relatou o lançamento de ao menos 21 mísseis balísticos em três ondas contra Kiev, além de drones contra diversas regiões. Os ataques, que miraram o sistema energético do país, deixaram ao menos 2 mortos e 34 feridos, em um contexto de preocupação com a chegada do inverno europeu. O alvo energético tem sido recorrente.
Em resposta, as forças ucranianas, segundo o Ministério da Defesa russo, lançaram um mega-ataque com aproximadamente 650 drones contra Moscou. A Rússia afirmou que todos os drones foram abatidos, mas destroços causaram ferimentos em duas pessoas em uma cidade na região administrativa da capital. Esse padrão de ataques recíprocos em momentos de negociação tem sido uma constante no conflito.
Troca de Corpos e Sinalizações para Negociação
Complementando as sinalizações que antecedem negociações, houve uma troca de corpos de soldados, mediada pela Bielorrússia. Os russos entregaram 252 cadáveres, enquanto os ucranianos forneceram 25. Essa ação humanitária, embora sombria, também faz parte do complexo tabuleiro diplomático em andamento.
O Kremlin, por meio de seu assessor Iuri Uchakov, manteve uma postura cautelosa, afirmando que as concessões ventiladas por Zelensky a Witkoff “ainda não nos satisfazem completamente”. Essa declaração indica que, apesar da disposição para dialogar, as divergências fundamentais persistem, especialmente em relação ao status das regiões ocupadas pela Rússia.
O Papel dos Estados Unidos e os Interesses de Trump
A iniciativa americana de buscar o fim da guerra, uma promessa de campanha de Donald Trump, tem se desdobrado em conversas estratégicas. A visita do enviado de Trump, com a participação de Jared Kushner, sinaliza um realinhamento do republicano em relação à guerra, com sugestões de encontros que poderiam incluir China, Rússia e Trump, mas sem a presença da Ucrânia, o que gerou protesto de Zelensky.
O jornal britânico Financial Times reportou que um desses encontros poderia ocorrer à margem da cúpula dos países da Ásia-Pacífico, em Shenzhen, no próximo mês. Apesar dos avanços, o negociador americano Steve Witkoff ressaltou que ainda há “muito trabalho à frente”. Uma fonte em Moscou, com conhecimento do assunto, revelou à Folha que Zelensky teria oferecido ceder o controle do Donbass em troca da presença da OTAN na Ucrânia, uma proposta que o Kremlin rejeita categoricamente, pois não aceita forças estrangeiras em seu vizinho.
Pressões e Estratégias Eleitorais
Essa dinâmica de negociações e pressões já foi observada anteriormente, com Trump buscando pressionar Zelensky a ceder territórios. Desta vez, o objetivo político de Trump parece estar atrelado às eleições de meio de mandato em novembro, nas quais seu partido corre o risco de perder o controle do Congresso. Para isso, ele busca amenizar a inflação de combustíveis, negociando a compra de diesel da Rússia, driblando o embargo europeu.
Os ataques ucranianos a refinarias russas, no entanto, forçaram Putin a interromper exportações. Agora, Trump pressiona Zelensky a cessar essas ações, colocando o líder ucraniano em uma posição delicada. Outros sinais de mudança na postura americana incluem a interrupção de avisos prévios sobre lançamentos de mísseis russos e a suspensão do envio de mísseis de interceptação e serviços de satélite militar para a Ucrânia.





