Vazamento de 420 mil e-mails da AfD expõe dados e vícios da extrema-direita alemã
Um ataque cibernético de grandes proporções atingiu o partido Alternativa para a Alemanha (AfD), expondo a comunicação interna, dados pessoais e práticas controversas da legenda de extrema-direita. Cerca de 420 mil mensagens e 50 mil documentos, totalizando 280 gigabytes de informação, foram disponibilizados para acesso público, segundo informações divulgadas pela imprensa alemã.
O vazamento, que começou a circular na terça-feira (20), lança luz sobre o lado menos visível da AfD, partido que vive um momento de ascensão política na Alemanha. As informações, que incluem extratos bancários com nomes de doadores, geram grande preocupação e escrutínio por parte da imprensa e de ativistas em redes sociais.
A AfD confirmou a invasão de um site que hospedava seu sistema de e-mails, mas minimizou o incidente, afirmando que apenas “algumas poucas caixas de e-mail” foram afetadas. No entanto, o volume de dados e a presença de mensagens da colíder Alice Weidel contradizem essa versão, indicando uma violação de segurança mais abrangente.
Controvérsias Internas e Ligações Neonazistas em Destaque
O pacote de e-mails revela episódios de tensões internas e a dificuldade do partido em lidar com declarações e atitudes extremistas de seus membros. Um dos casos em destaque é o do parlamentar nacionalista Matthias Helferich, para quem o diretório regional da Renânia do Norte-Vestfália elaborou um dossiê sobre declarações racistas, recomendando sua expulsão. Apesar disso, ele acabou sofrendo apenas uma suspensão temporária.
Outra revelação preocupante envolve Laurens Nothdurft, ex-membro de um grupo neonazista banido em 2009. O diretório da Baviera reclamou, dez anos depois, de sua nomeação como assessor jurídico no estado. Atualmente, Nothdurft é cotado para se tornar secretário estadual em Saxônia-Anhalt, estado onde a AfD obteve quase 44% dos votos na eleição regional de setembro, caminhando para se tornar o primeiro governo de extrema-direita na Alemanha desde a Segunda Guerra Mundial.
As mensagens também mostram o cotidiano de lidar com “espasmos nazistas”, como um dirigente em 2025 pedindo a expulsão de um militante que tentou vender uma bandeira com a suástica em uma barraca de campanha. Em outro caso, um grupo de WhatsApp exibia uma foto de Adolf Hitler com a mensagem: “o Führer deseja bom dia ao grupo”.
Questões Financeiras e Escândalos de Doação
O vazamento também expôs questões financeiras sensíveis da AfD. Há mensagens de Alice Weidel, datadas das eleições de 2017, que tratam de um escândalo de doações ilegais. Outra troca de mensagens revela um debate sobre o uso de fundos partidários para cobrir a defesa jurídica de Alexander Gauland, um dos fundadores da sigla, que era processado por injúria racial contra uma integrante do governo federal de origem turca.
A AfD tentou contestar a veracidade das informações, mas logo mudou o discurso, classificando o vazamento como “um atentado ao partido e à democracia”. No entanto, a revista Der Spiegel, ao analisar o conteúdo, encontrou solicitações de entrevistas enviadas por seus jornalistas, o que reforça a autenticidade dos dados vazados.
Contexto Político e Plano para a União Europeia
O vazamento ocorre em um momento em que a AfD busca consolidar sua presença internacional. Liderando as pesquisas de intenção de voto na Alemanha com 27%, o partido planejava lançar em Estrasburgo um plano para reduzir a burocracia na União Europeia, o que na prática significaria a quase abolição do Parlamento e da Comissão Europeia. A proposta, inspirada em Marine Le Pen, visa a um Parlamento Europeu sem representantes eleitos e a tarefas administrativas reduzidas para a Comissão.
Caso suas propostas não sejam aceitas, a AfD ameaça realizar um plebiscito para a saída da Alemanha do bloco europeu. A divulgação desses e-mails, no entanto, ofusca os planos internacionais do partido, colocando em evidência suas controvérsias internas e práticas questionáveis.





