Decisão judicial sobre suspeito de ataque terrorista em Paris gera protestos e acusações de parcialidade.
A soltura de Kévin T., suspeito de um atentado terrorista de motivação racista em Paris, desencadeou uma onda de protestos neste domingo (25). Centenas de manifestantes ocuparam as ruas da capital francesa em homenagem às vítimas e para expressar repúdio ao crescimento da extrema-direita e do racismo no país.
A Procuradoria Nacional Antiterrorismo informou que o suspeito foi encaminhado para uma unidade psiquiátrica para observação. O objetivo é avaliar sua condição de saúde mental para determinar se ele está apto a continuar sendo interrogado sobre os crimes. A decisão judicial gerou forte reação de advogados e familiares das vítimas.
A família de Pengo Bossio Wangi, jovem de 26 anos de origem congolesa morto no ataque, através de seu advogado, Yassine Bouzrou, levantou preocupações sobre um padrão de tratamento diferenciado em casos ligados à extrema-direita. Conforme divulgado pelas fontes, Kévin T. já possuía histórico de esquizofrenia e fazia tratamento médico, além de ter testado positivo para maconha e cocaína.
Ataque deliberado e motivação racista em Paris
O ataque ocorreu na manhã de sexta-feira (23), quando Kévin T. abriu fogo contra transeuntes em diferentes locais, incluindo um posto de gasolina, um centro médico e um parque infantil. O presidente Emmanuel Macron classificou o ato como um “atentado terrorista racista”, destacando que o atirador escolheu suas vítimas com base na cor da pele e aparência, em uma ação deliberada.
Entre os cinco feridos, uma menina de 12 anos permanece em estado grave após ser atingida por oito disparos. Durante as investigações, a polícia efetuou a prisão preventiva de quatro pessoas próximas a Kévin T., incluindo seus pais. Na residência do suspeito, foram encontrados um exemplar de “Mein Kampf”, de Adolf Hitler, além de uma Bíblia e um Alcorão.
O agressor também havia preparado uma estrutura com botijões de gás e dispositivos elétricos em seu apartamento, com a intenção de explodi-lo. A descoberta revela a gravidade e o planejamento por trás dos atos, intensificando o debate sobre segurança e extremismo.
Protestos e o medo crescente das minorias na França
Enquanto as autoridades confirmavam a transferência do acusado, manifestantes e líderes políticos locais tomaram as ruas de Aubervilliers, em um ato marcado por silêncio e homenagens. A marcha, que contou com a presença do prefeito de Saint-Denis, Bally Bagayoko, exibiu faixas com fotos de Bossio Wangi e cartazes que criticavam a influência do discurso de ódio e da mídia no fortalecimento da extrema-direita.
A designer Ella Samba, presente no protesto, expressou o medo crescente enfrentado pelas minorias e a normalização da retórica radical na França. “Este ataque racista é resultado do grande avanço da extrema-direita na mídia. Como mulher negra, era importante vir apoiar a família”, declarou. Ela alertou que a chegada da extrema-direita ao poder seria “francamente perigosa”.
Advocacia questiona tratamento diferenciado em casos de extremismo
Yassine Bouzrou, advogado da família de Pengo Bossio Wangi, destacou a “recorrência preocupante” de casos onde a questão psiquiátrica é rapidamente invocada quando o atentado provém da extrema-direita. “Embora a perícia e a irresponsabilidade penal sejam princípios fundamentais, a simetria deve ser a regra: mesmas perícias, mesmos prazos de avaliação, seja qual for o perfil ideológico do acusado”, afirmou o criminalista.
A declaração de Bouzrou ecoa o sentimento de muitos que temem que a saúde mental possa ser usada como justificativa para atenuar a responsabilidade de indivíduos com convicções extremistas, especialmente em um contexto de crescente polarização política e social na França. A comunidade clama por justiça e igualdade no tratamento legal, independentemente da ideologia do acusado.





