Homem que saiu a pé do Chile em 1998 está a dias de completar volta ao mundo, cruzando 4 continentes e o Estreito de Bering
Karl Bushby, um britânico de 57 anos, está prestes a concluir uma jornada que começou há quase três décadas. Em novembro de 1998, ele partiu da Patagônia chilena com o objetivo de dar a volta ao mundo caminhando, sem utilizar meios de transporte. Agora, após atravessar a nado o Canal da Mancha, ele se aproxima de sua cidade natal, Hull, na Inglaterra, para encerrar a expedição que o levou por paisagens extremas e situações de risco.
A ideia audaciosa surgiu de uma sugestão de seu pai, que o desafiou a atravessar o Estreito de Bering, entre o Alasca e a Rússia, quando este estivesse congelado. Essa travessia abriria caminho por quatro continentes, completando o circuito que ele traçou em um mapa, partindo da Inglaterra, passando pela Europa, Ásia, Américas, até o extremo sul da América do Sul. A jornada, que ele descreve como a “jornada definitiva”, começou com poucos recursos, mas com uma determinação inabalável.
Ao longo de quase 28 anos, Bushby enfrentou perigos como a selva do Darién e a tundra siberiana, foi preso, deportado, ficou sem dinheiro e superou inúmeros obstáculos. Sua única companhia inicial, além de si mesmo, foi “A Fera”, um carrinho de golfe adaptado que carregava seus pertences. A decisão de não pisar no Reino Unido até o fim da jornada, mesmo que isso significasse ficar longe de seu filho, Adam, evidencia a magnitude de seu compromisso. Conforme divulgado em relatos recentes, Bushby chegou a seu país natal este mês, após sua travessia pelo Canal da Mancha, e planeja chegar à casa de sua mãe nesta semana.
O Início de uma Aventura Monumental
A caminhada de Karl Bushby teve início em Punta Arenas, no Chile, com apenas cerca de 500 dólares e “A Fera”, seu fiel companheiro de jornada. A rotina envolvia percorrer aproximadamente 29 quilômetros por dia, buscando um local seguro para acampar. Os primeiros trechos foram marcados por condições climáticas adversas e uma dieta baseada em alimentos de postos de gasolina, sem nenhum tipo de apoio externo.
Bushby se referia a si mesmo e ao carrinho como “nós”, comparando “A Fera” a Wilson, a bola de vôlei que acompanhou o personagem Tom Hanks no filme “Náufrago”. Com o tempo, a notícia de sua jornada se espalhou, e pessoas começaram a oferecer ajuda, como comida e dinheiro. Apesar da aventura, ele descreve a vida na estrada como “absurdamente, insanamente tediosa”, com pausas de semanas ou meses para recuperação e para escapar da monotonia.
Desafios e Novas Perspectivas nos Estados Unidos
Ao entrar nos Estados Unidos em 2002, Bushby notou uma mudança em como era percebido. De uma curiosidade a beira da estrada, passou a ser visto como um incômodo, muitas vezes confundido com um morador de rua, especialmente no período pós-11 de Setembro. Ele era frequentemente parado pela polícia, impedido de usar rodovias e obrigado a mudar de local de acampamento.
Foi nos EUA que Bushby conseguiu seus primeiros patrocínios, que lhe garantiam algumas centenas de dólares mensais. Em 2003, ao chegar ao Canadá, ele descobriu uma forma mais eficiente de se locomover: empurrar “A Fera” em vez de puxá-lo, o que se mostrou consideravelmente mais fácil.
A Travessia Gélida do Estreito de Bering
Um dos momentos mais desafiadores da jornada foi a travessia do Estreito de Bering em março de 2006, junto com o aventureiro franco-americano Dimitri Kieffer. Durante duas semanas, eles acamparam sobre blocos de gelo instáveis, ouvindo os sons assustadores do congelamento e, em uma ocasião, precisaram deixar a barraca às pressas quando o gelo começou a rachar sob eles.
Apesar dos perigos, a dupla conseguiu chegar à Rússia. No entanto, foram detidos por guardas de fronteira que não acreditavam em sua façanha de atravessar o estreito a pé, permanecendo sob custódia por quase dois meses por não terem se registrado formalmente.
O Legado Familiar e o Fim de uma Era
A decisão de Bushby de ficar longe do Reino Unido dificultou o contato com seu filho, Adam, que tinha 8 anos quando a jornada começou. Bushby expressou a esperança de que sua aventura pudesse inspirar o filho e lhe trazer orgulho. Adam, hoje com 36 anos, relata que, na infância, não compreendia a ausência do pai, mas que a situação mudou em 2004, quando se reencontraram no Alasca.
Após atravessar o Canal da Mancha, Bushby descreveu uma sensação de perda, pois o fim da jornada, antes tão distante, agora se aproxima. Ele sente que está prestes a perder seu “propósito de vida”, que terminará “de repente”.
Apesar da incerteza sobre o futuro, Karl Bushby tem interesse em se tornar educador e compartilhar a principal lição de sua viagem: a gentileza dos desconhecidos. Ele encontrou abrigo, comida e apoio em diversas culturas, e tem levado essa mensagem a jovens em escolas, afirmando que “o mundo é um lugar muito melhor do que imaginam”.





