Aposta de Alckmin para 2027: Ajuste fiscal e juros em queda geram debate no governo e no mercado
O vice-presidente Geraldo Alckmin traça um plano ambicioso para 2027, caso o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) seja reeleito: um ajuste fiscal rigoroso aliado à redução da taxa de juros pelo Banco Central. Essa estratégia, no entanto, acende alertas no mercado financeiro e desafia a ortodoxia econômica.
Enquanto o governo busca conciliar austeridade com estímulos monetários, a Instituição Fiscal Independente (IFI) adverte sobre um risco iminente de “apagão fiscal” se as contas públicas não apresentarem uma melhora real.
A visão de Alckmin, detalhada em entrevista ao Valor Econômico, é que o sucesso econômico reside em correções antecipadas. O ajuste fiscal, segundo ele, “se faz no primeiro ano”, e o avanço em diversas áreas é um trunfo para a comparação eleitoral. Conforme informação divulgada pelo Valor Econômico, Alckmin defende que “é preciso avançar mais” na questão fiscal, um tema que integrará o programa de governo de Lula.
O pilar fiscal: pragmatismo e “lealdade concorrencial”
Alckmin destaca a queda do déficit primário como prova da capacidade de ajuste, com metas que saíram de quase 10% em 2020 para zero ou 0,5%. Para ele, a eleição é uma oportunidade de mostrar o progresso do Brasil em quatro anos, com foco em educação, inovação e competitividade para 2027.
Apesar da defesa do rigor fiscal, o vice-presidente mantém uma postura pragmática em relação a políticas estratégicas. Ele defende a manutenção da taxa sobre importações de baixo valor, as chamadas “blusinhas”, argumentando a necessidade de “lealdade concorrencial” para proteger a indústria nacional. Essa decisão reflete o dilema entre a austeridade fiscal e a manutenção de prioridades estratégicas, exigindo “trade-offs” políticos complexos.
Contradição monetária: Juros “descalibrados” em foco
Um dos pontos de maior tensão na estratégia de Alckmin é sua crítica à política monetária. Ele classifica os juros atuais como “totalmente descalibrados” e questiona a abordagem do Banco Central em relação às causas da inflação.
Para o vice-presidente, a inflação é majoritariamente causada por choques de oferta, como a volatilidade do petróleo, a seca na agricultura e tensões geopolíticas. Ele argumenta que a taxa de juros não interfere diretamente nesses fatores. “Juro não vai subir nem baixar o preço do barril do petróleo. Então, a política monetária tem que ser mais adequada”, defende.
Mercado e Copom em alerta: A desconexão fiscal e monetária
A ortodoxia econômica sugere que a consolidação fiscal deve preceder a flexibilização monetária. No entanto, o governo atual busca ambas simultaneamente, gerando incerteza sobre a viabilidade do plano macroeconômico para 2027. Essa desconexão é um ponto de atenção para o mercado.
O Comitê de Política Monetária (Copom) valida essas preocupações. A autoridade monetária reconhece que a política fiscal impacta a demanda e a sustentabilidade da dívida, influenciando o prêmio de risco. O Copom aponta que “uma política fiscal contracíclica que reduza o prêmio de risco favorece a convergência da inflação à meta”, um cenário que, atualmente, não se materializa.
De forma ainda mais crítica, o Copom alerta que a falta de disciplina fiscal e as incertezas sobre a dívida pública elevam a taxa de juros neutra da economia. Isso, por sua vez, reduz a capacidade do Banco Central de cortar juros. Sem uma austeridade fiscal crível, o BC perde margem de manobra e a necessidade de “políticas fiscal e monetária harmoniosas”, defendida pelo comitê, fica comprometida.
Governabilidade e a “Frente Grande” para 2027
Para viabilizar o ajuste fiscal e a agenda econômica, o governo aposta na expansão de sua base política, buscando formar uma “Frente Grande”. Alckmin informa que oito partidos já apoiam a chapa de reeleição, com negociações conduzidas por Edinho Silva.
O PSB, partido de Alckmin, tem papel central na articulação, buscando absorver quadros como o senador Rodrigo Pacheco e a ex-ministra Simone Tebet. O objetivo é garantir capital político para aprovar reformas consideradas impopulares.
Contudo, uma coalizão ampla apresenta desafios. Quanto maior o número de partidos, maior a dificuldade em manter consensos sobre prioridades econômicas, especialmente em momentos de decisões fiscais mais duras. A “frente grande” é vista como uma aposta de alto risco, com potencial de fragmentação.
Visão de desenvolvimento: Ambição e o fantasma do “apagão fiscal”
Alckmin propõe para 2027 um modelo de desenvolvimento que vai além do ajuste de contas. Ele defende um Estado regulatório, mas não interventor, rejeitando novos incentivos fiscais e estatais.
Na matriz energética, o vice-presidente aponta avanços com o biodiesel e o etanol, com potencial de expansão. A estratégia para o setor extrativista foca na monetização do subsolo e na agregação de valor a minerais críticos, aproveitando a transição energética global.
Alckmin enfatiza que o Brasil deve usar seu excedente de energia renovável para atrair investimentos pesados em tecnologia, como datacenters. A meta é transformar o país em uma solução de suprimento e sustentabilidade para parceiros globais, saindo da posição de “problema”.





