Documentário “Vivo 76” desvenda a genialidade de Alceu Valença na luta contra a ditadura
O filme “Vivo 76”, de Lírio Ferreira, mergulha nos bastidores da criação do espetáculo “Vou danado pra catende” e do álbum “Vivo!”, marcos na carreira de Alceu Valença. O documentário, exibido na 31ª edição do festival É Tudo Verdade, retrata um período crucial entre 1975 e 1976, quando o artista eletrificou a música nordestina com a energia do rock, ao mesmo tempo em que enfrentava a repressão da ditadura militar.
A obra cinematográfica, que chega às telas uma década após sua concepção inicial, explora as raízes da criatividade de Alceu, remontando sua infância em São Bento do Una, Pernambuco, onde o circo, como ele mesmo relata, foi uma inspiração fundamental. Essa influência circense se manifesta de forma surpreendente em sua trajetória artística e em sua postura desafiadora.
Conforme divulgado sobre o filme, “Vivo 76” não se limita a celebrar a música, mas também expõe a coragem de artistas que, como Alceu Valença, usaram sua arte como forma de resistência. O documentário apresenta depoimentos de críticos, músicos e biógrafos, além do próprio Alceu, que compartilham memórias e análises sobre esse período turbulento e produtivo da história cultural brasileira.
A Infância no Circo e a Inspiração para “Vivo 76”
A frase de Alceu Valença, que abre o documentário, “Esse disco é, no fundo, um circo para mim. Eu começo com a voz do palhaço”, resume a essência do filme. Lírio Ferreira utiliza essa metáfora para traçar um paralelo entre as memórias de infância do artista em São Bento do Una, onde o circo era uma presença constante e fascinante, e a concepção do show e do álbum que revolucionariam a música nordestina.
O diretor, com sensibilidade, reconstrói a jornada de Alceu até o momento decisivo de 1975. Antes de focar no show e no disco que o consagrariam, o filme revisita o primeiro álbum solo do cantor, “Molhado de suor”, lançado em 1974 sem o impacto esperado. Alceu descreve esse trabalho inicial como “mar” e “água”, contrastando com a força que viria a seguir.
O Show “Vou danado pra catende” e a Repressão da Ditadura
O cerne de “Vivo 76” reside na análise do show “Vou danado pra catende” e do álbum “Vivo!”. Esses trabalhos foram cruciais para fundir a riqueza dos ritmos nordestinos com a energia contagiante do rock, criando uma sonoridade inovadora e potente. O documentário detalha como essa fusão musical foi recebida e, em muitos casos, combatida pela elite cultural da época.
A resistência enfrentada por Alceu não foi apenas artística, mas também política. O filme aborda a repressão sofrida por artistas que se opunham à ditadura. O crítico musical Antonio Carlos Miguel e o biógrafo Júlio Moura, entre outros, oferecem perspectivas valiosas sobre o contexto social e político da época. Moura, por exemplo, relembra a ida de Alceu aos Estados Unidos em 1969 e a resistência que o show de 1975 encontrou, incluindo “a patrulha dos jornalistas do semanário ‘O Pasquim'”.
O Reencontro com Geraldo Azevedo e a Prisão do Amigo
Um dos momentos tocantes do documentário é o reencontro de Alceu Valença com Geraldo Azevedo, seu parceiro no primeiro álbum da discografia. A cena, que ocorre no palco e na plateia do Teatro Claro Mais (antigo Teatro Tereza Rachel), onde Alceu estreou o show no Rio de Janeiro, ressalta a força da amizade e da colaboração artística.
O depoimento de Geraldo Azevedo traz à tona a dura realidade da repressão, com o músico relatando sua prisão e tortura. A notícia abalou Alceu profundamente, a ponto de fazê-lo considerar deixar o Brasil. Essa vulnerabilidade é explorada no filme com a inserção de imagens do clipe de “Retrato 3 x 4”, música gravada para a novela “O espigão”, contrastando com cenas de protestos populares contra a ditadura.
A “Loucura” Circense como Ato de Resistência
O tom político do documentário se intensifica ao retratar o preconceito sofrido por Alceu, rotulado como “louco” e “maluco” por seu visual, especialmente o cabelo comprido. Foi essa imagem de “cabeludo circense” que o impulsionou a enfrentar a repressão.
Diante de plateias inicialmente reduzidas, com apenas “39 pessoas na plateia” na estreia, Alceu Valença, com a banda que incluía Paulo Rafael, Israel Semente Proibida, Zé da Flauta, Agrício Noya e Zé Ramalho, decidiu “armar o circo” na Praia de Copacabana, utilizando um megafone para divulgar o show. Essa ação de marketing ousada e inusitada transformou a situação, atraindo o público e garantindo o sucesso do show, que foi gravado ao vivo.
O álbum “Vivo!” resultante dessa gravação não apenas se tornou um marco na carreira de Alceu Valença, mas também um símbolo de resistência e inovação. O documentário celebra a “salutar dose de loucura” do artista, que o impediu de se tornar um mero “escravo da cultura do entretenimento”, consolidando-o como um ícone da música brasileira.





