Guerra no Irã: Embaixador Brasileiro Relata Terror, Tremor de Paredes e Mortes em Teerã
O embaixador do Brasil no Irã, André Veras Guimarães, 59, descreveu a brutalidade da guerra em Teerã, sintetizando a experiência como algo muito distante de um videogame. Ele relatou ter vivenciado bombardeios diários, que causaram tremores nas paredes de sua residência e a destruição de edifícios.
Morando no último andar de um prédio, Veras acordava frequentemente com estrondos e via pela janela a explosão de edifícios. Ele enfatizou que “ninguém consegue passar incólume por uma situação dessas”. O diplomata compartilhou esses relatos em entrevista à BBC News Brasil, quando o conflito completava 46 dias.
Segundo o embaixador, as ações militares, apesar da tecnologia envolvida, não são precisas. Ele citou o exemplo de um ataque a uma escola primária que resultou na morte de 175 pessoas, a maioria meninas, um fato que o presidente dos EUA, Donald Trump, disse desconhecer.
Veras criticou o termo “dano colateral”, considerando-o uma forma de “suavizar o impacto e humanizar a guerra”. Para ele, dano colateral são os prédios atingidos acidentalmente, os feridos, os mortos, hospitais e universidades danificados em ataques direcionados a alvos vizinhos.
Impacto em Escolas e Hospitais
Um levantamento do jornal The New York Times identificou danos a 22 escolas e 17 instituições de saúde desde o início do conflito, com base em imagens de satélite e vídeos. No entanto, a Sociedade do Crescente Vermelho do Irã informou que ao menos 763 escolas e 316 unidades de saúde foram danificadas ou destruídas.
O embaixador também comentou a retórica de Donald Trump, que ameaçou destruir infraestruturas no Irã. Veras observou que tais declarações podem ser interpretadas como ameaças de “crime de guerra ou genocídio”, causando apreensão na população.
Cessar-fogo e Expectativa de Retomada
A rotina de bombardeios foi interrompida em 7 de abril com um cessar-fogo de duas semanas entre EUA e Irã. Até então, os ataques eram diários e podiam ocorrer a qualquer momento. Os alvos principais eram instalações ligadas ao Estado iraniano, como estruturas da Guarda Revolucionária e delegacias.
Apesar da calma em Teerã, a expectativa é de que as hostilidades recomecem após o fracasso das negociações. A atmosfera local é de “apreensão, expectativa e medo” sobre os futuros ataques. A ameaça de aniquilação por parte de Trump gerou decepção e choque, desconsiderando a história da civilização persa-iraniana.
Resiliência Iraniana Diante de Sanções
O embaixador destacou a resiliência da sociedade iraniana, acostumada a sanções econômicas. Ele afirmou que, mesmo sob ameaças, os supermercados não ficaram desabastecidos e a energia foi mantida. A população tem demonstrado “altivez e força” diante da situação.
Veras também mencionou que cerca de 60 a 70 dos aproximadamente 180 brasileiros que estavam no Irã deixaram o país sem dificuldades por via rodoviária, já que as fronteiras permanecem abertas. A nomeação do embaixador para o posto ocorreu em junho de 2025, poucos dias antes do início dos ataques.





