Análise recente sugere que a “democracia iliberal” húngara, liderada por Viktor Orbán, não representou uma negação dos valores europeus, mas sim um reflexo de suas contradições históricas e identitárias.
As recentes eleições parlamentares na Hungria, que marcaram o fim de 16 anos de governo de Viktor Orbán, foram amplamente celebradas como um “retorno do país à Europa”, símbolo de democracia e liberdade. No entanto, uma análise aprofundada aponta para uma perspectiva diferente.
A professora e especialista entrevistada sugere que o projeto político iliberal húngaro pode ser visto não como uma rejeição aos ideais europeus, mas como um espelho das complexidades e contradições inerentes à própria Europa, um continente marcado por guerras, fascismo e nazismo.
Essa visão desafia a narrativa dominante de um “retorno” e propõe uma reflexão sobre a identidade europeia e suas diversas manifestações históricas. Acompanhe os detalhes desta análise intrigante.
O Legado da “Democracia Iliberal” Húngara
Em 12 de abril, a Hungria, vista como um “laboratório internacional para as direitas radicais” desde 2010, viu suas eleições parlamentares interromperem o projeto iliberal do partido União Cívica Húngara (Fidesz) e de seu líder, Viktor Orbán. Com uma participação eleitoral expressiva, próxima a 80%, as urnas consagraram a vitória da oposição, liderada por Péter Magyar, do partido Respeito e Liberdade (Tisza).
O termo “democracia iliberal” foi cunhado pelo próprio Orbán em 2014, argumentando que uma democracia não precisava ser necessariamente liberal. Para ele, o liberalismo havia falhado em servir aos interesses nacionais húngaros entre 1990 e 2010. A concepção iliberal, portanto, não implicava uma ruptura abrupta com a democracia, mas sim com seu caráter liberal.
O Fidesz implementou reformas graduais, alterando a constituição, o judiciário, concentrando meios de comunicação e restringindo universidades e organizações da sociedade civil. Essa abordagem, descrita como “erosão por dentro”, preservou mecanismos formais democráticos enquanto limitava seu funcionamento interno.
Paralelamente, o governo promoveu a Hungria como defensora dos “valores cristãos”, implementou políticas anti-imigração, defendeu a “família tradicional”, limitou direitos reprodutivos e rejeitou pautas de gênero, além de adotar políticas hostis à população LGBTQIA+.
Relações Ambíguas com a União Europeia e a Rússia
Desde sua adesão à União Europeia em 2004, a Hungria manteve uma relação ambígua com o bloco, especialmente sob Orbán. Formalmente integrada, o país frequentemente entrou em conflito com as instituições europeias, principalmente em questões de democracia.
Ao mesmo tempo, o governo húngaro estreitou laços com a Rússia de Vladimir Putin, divergindo das posições de outras lideranças europeias. A invasão da Ucrânia em 2022 acentuou esse distanciamento, como demonstrado pelo veto húngaro a empréstimos para a Ucrânia.
A campanha eleitoral do Fidesz em 2026 utilizou figuras como o presidente ucraniano Volodimir Zelenski e a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, como símbolos de ameaças externas, associadas à guerra e às pressões de Bruxelas.
Interpretações do “Retorno à Europa”
A vitória da oposição húngara gerou euforia em partes da Europa, com a imprensa e lideranças políticas falando em um “retorno à Europa” e uma “vitória dos valores europeus”. Expressões como “Hungria, Polônia, Europa, juntos de volta!” e “retornou ao verdadeiro coração da Europa” sintetizaram esse sentimento.
A ideia de “retorno à Europa” remete a uma noção de Ocidente como sinônimo de democracia, liberdade e direitos humanos, valores que moldaram a identidade continental após a Segunda Guerra Mundial. Essa narrativa foi proeminente em 1989, com as revoluções na Europa Central sendo vistas como uma vitória da “verdadeira Europa” contra a tirania.
Contudo, aplicar essa lógica aos resultados eleitorais húngaros levanta questões importantes. Seria o modelo iliberal húngaro uma negação da Europa, ou parte de sua complexa experiência moderna? Afinal, eventos como fascismo, nazismo e guerras mundiais também são frutos da modernidade europeia.
A Hungria como Reflexo, Não Negação, da Europa
A análise sugere que a experiência iliberal e autoritária húngara no século 21 pode ser vista como parte das tradições europeias. Ao questionar o modelo democrático-liberal da UE e optar por uma via nacionalista e iliberal, a Hungria não se afastou do “verdadeiro coração da Europa”, mas evidenciou as contradições históricas e identitárias que marcam o continente.
A Hungria não está “voltando” à Europa; a disputa atual reflete uma discussão sobre o significado político e normativo da própria ideia de Europa. A narrativa de “retorno” reintroduz uma hierarquia implícita, baseada na superioridade de um Ocidente civilizado e na inferioridade de um Oriente europeu “bárbaro”.
É crucial notar que, enquanto direitas radicais enfrentam crises em algumas partes do Leste Europeu, elas continuam fortes na Itália, França e Alemanha, demonstrando a persistência dessas tensões em todo o continente.





