Professor judeu com quipá da Palestina é detido em Israel: “Polícia politizada”
Um incidente inusitado ocorreu em um café na região central de Israel, onde Alex Sinclair, um professor judeu, foi detido pela polícia por usar um quipá adornado com as bandeiras de Israel e da Palestina. O episódio, que durou cerca de meia hora em uma delegacia, culminou com a devolução do acessório religioso, mas com a parte contendo a bandeira palestina cortada.
A detenção de Sinclair, ocorrida no dia 20 de maio, rapidamente ganhou repercussão no país, não pela gravidade em si, mas pelo forte simbolismo. A imagem do quipá mutilado reacendeu debates sobre a politização das forças de segurança israelenses e os limites da liberdade de expressão, especialmente em relação a símbolos palestinos.
O professor, que se define como religioso de esquerda e defensor da coexistência pacífica, vê o ocorrido como um reflexo do endurecimento político em Israel. Ele acredita que a ação policial demonstra uma interpretação cada vez mais restritiva sobre símbolos que representam a causa palestina, conforme relatado por Alex Sinclair à Folha. A polícia israelense, por sua vez, informou que o caso está sob investigação interna.
Professor Sinclair: Um Símbolo de Coexistência e suas Consequências
Alex Sinclair, 53 anos, é um acadêmico com uma visão clara sobre o conflito israelo-palestino. Nascido em Londres, ele se mudou para Israel em 1997 e leciona na prestigiada Universidade Hebraica. Sinclair se descreve como alguém que acredita na autodeterminação judaica e em sua conexão com a terra, mas que também reconhece o direito dos palestinos à mesma conexão e defende a solução de dois Estados como a única saída viável.
O quipá com as duas bandeiras foi encomendado por Sinclair há 20 anos, em Jerusalém, como uma forma de expressar sua identidade multifacetada. Ele desejava que o acessório refletisse sua religiosidade, seu compromisso com Israel e seu apoio à causa palestina. Ao longo de duas décadas, o quipá gerou reações diversas, desde questionamentos até conversas complexas com amigos e conhecidos.
A Escalada da Tensão e a Liberdade de Expressão em Israel
Sinclair percebe uma mudança significativa no clima político e social de Israel nos últimos anos, especialmente após a entrada de Itamar Ben-Gvir no governo Netanyahu em 2022. Ele descreve essa transição como um movimento em direção a um nacionalismo religioso mais exacerbado, que ele considera perigoso. A detenção de Sinclair levanta preocupações sobre a crescente restrição ao uso de símbolos palestinos, como a bandeira e até mesmo melancias, que compartilham cores com a bandeira palestina.
Apesar de não existir uma lei explícita contra o uso da bandeira palestina, as forças de segurança frequentemente a interpretam como um ato de incitação. Essa interpretação, segundo Sinclair, contribui para a polarização e dificulta o diálogo. Ele acredita que o conflito não é intrinsecamente entre israelenses e palestinos, mas sim entre moderados e extremistas de ambos os lados.
Medidas Legais e o Futuro da Coexistência
Diante da experiência vivida, Alex Sinclair estuda a possibilidade de tomar medidas legais contra a polícia israelense. Ele vê a atenção gerada por sua detenção como uma oportunidade para amplificar sua mensagem de coexistência e para discutir o futuro que ele almeja para Israel. A corporação policial confirmou que o caso está sendo investigado pela Divisão de Investigações Internas, vinculada ao Ministério da Justiça.
Sinclair pretende continuar expressando suas convicções, inclusive com planos de revisitar a loja onde encomendou seu quipá. Ele reafirma sua crença de que a maioria da população, tanto israelense quanto palestina, anseia pela paz e pela convivência, e que essa força majoritária prevalecerá sobre os extremismos.





