Documentos divulgados pelo Departamento de Justiça dos EUA revelam detalhes sobre a obsessão de Jeffrey Epstein em construir uma “mesquita” particular em sua ilha, Little Saint James. Para decorar o edifício, ele obteve artefatos islâmicos raros, incluindo tapeçarias da Caaba em Meca, o local mais sagrado do Islã, e azulejos de mesquitas antigas. Essa busca por objetos se entrelaçava com seu objetivo de expandir sua rede de contatos ricos e poderosos no Oriente Médio.
Epstein, um judeu secular, dedicou anos a essa empreitada. A correspondência e entrevistas com pessoas envolvidas no projeto confirmam que ele planejou o edifício como uma representação de uma mesquita. A estrutura, com sua cúpula dourada, foi objeto de especulações sobre seu propósito, variando de sala de música a templo ocultista. Os documentos, no entanto, esclarecem a intenção de Epstein.
A obtenção de tapeçarias bordadas com versículos do Alcorão, que um dia adornaram a Caaba e suas paredes externas, foi facilitada por suas conexões, incluindo contatos na corte real da Arábia Saudita. Uma foto de 2014 mostra Epstein admirando uma dessas tapeçarias com Sultan Ahmed bin Sulayem, um executivo emirati que, como outros associados a Epstein, enfrentou consequências por essa ligação.
A construção da ‘mesquita’ de Epstein
A fixação de Epstein pelo design islâmico era conhecida. Em 2003, ele já se gabava de possuir um dos maiores tapetes persas em residência particular. Sua visão para o santuário na ilha começou a tomar forma enquanto ele estava preso na Flórida, após se declarar culpado de contratar prostitutas. Inicialmente, ele planejou um “hammam”, uma casa de banhos turca, com “jardinagem islâmica”.
Posteriormente, Epstein abandonou esse plano e buscou licença para uma “sala de música”, referindo-se ao edifício como “5 Palms”. Ele enviava ideias de design, incluindo imagens de mesquitas antigas. Em 2011, ele escreveu a um contato no Uzbequistão solicitando azulejos autênticos, afirmando que seriam “para as paredes internas, como uma mesquita”.
Ion Nicola, um artista romeno contratado para o projeto, confirmou em entrevista que Epstein frequentemente chamava o local de sua “mesquita”. Embora não esteja claro se Epstein pretendia que o edifício funcionasse como uma mesquita religiosa oficial, sua intenção de replicar a estética e a atmosfera de um local sagrado islâmico era evidente.
O diplomata e o príncipe saudita
Por volta de 2010, Epstein desenvolveu uma amizade com o diplomata norueguês Terje Rod-Larsen. A correspondência entre os dois revela discussões frequentes sobre negócios e assuntos internacionais, com a Arábia Saudita sendo um tema recorrente. A conversa sobre o reino se intensificou em 2016, quando Mohammed bin Salman, então vice-príncipe herdeiro, planejava abrir o capital da estatal petrolífera Aramco.
Epstein via uma oportunidade de se tornar consultor financeiro para o príncipe. Rod-Larsen o conectou a Raafat Al-Sabbagh, um consultor da corte real saudita, e sua assessora Aziza Al Ahmadi. Através deles, Epstein iniciou uma intensa campanha para cortejar o príncipe herdeiro, apresentando propostas consideradas “radicais”, como a criação de uma nova moeda chamada “a shariah”.
Uma visita à Arábia Saudita foi planejada, com Al Ahmadi instruindo Epstein a informar ao Consulado Saudita que ele tinha um convite de Sua Alteza Real, o Príncipe Mohammed bin Salman. Após chegar ao reino, Epstein enviou fotos para Rod-Larsen, mostrando-o interagindo com o príncipe herdeiro, uma das quais ele posteriormente exibiria em sua residência em Nova York.
Lembranças de um local sagrado para a ‘mesquita’
No início de 2017, Epstein se reuniu com Al Ahmadi em Nova York. Simultaneamente, assistentes de Epstein e de Al Ahmadi negociavam o envio de uma tenda da Arábia Saudita para a ilha. O representante de Al Ahmadi informou que mais itens seriam enviados “para a mesquita”. Um assistente de Epstein comunicou a um despachante aduaneiro que “estamos recebendo três peças da Caaba”.
Um documento separado continha fotos de tapeçarias bordadas, descrevendo uma como “utilizada dentro da Caaba” e outra, a Kiswa, que cobria o exterior do santuário. A Kiswa tem um significado religioso profundo, sendo uma nova cobertura para a Caaba confeccionada anualmente por centenas de artesãos em uma oficina real, com um custo estimado de US$ 5 milhões.
A forma como Al Ahmadi obteve essas peças sagradas não está clara. Nem Al Ahmadi, nem o governo saudita, Al-Sabbagh ou o advogado de Rod-Larsen responderam a pedidos de comentários. Os itens foram enviados para a “mesquita” de Epstein, reforçando sua obsessão em recriar um espaço sagrado islâmico em sua propriedade privada.
Nuvens escuras sobre a ilha e as conexões
Em 2017, o furacão Maria causou danos significativos no Caribe, incluindo na ilha de Epstein, destruindo ou danificando alguns itens em sua “mesquita”. Além das adversidades climáticas, Epstein enfrentava outros desafios. Mohammed bin Salman havia ascendido a príncipe herdeiro e, aparentemente, ignorou os conselhos de Epstein, o que o irritou.
Epstein expressou seu descontentamento em uma mensagem a Rod-Larsen, afirmando que “o reino precisa de muita ajuda, cara, agora, pois não seguiram as orientações do judeu”, referindo-se a si mesmo. Após o assassinato do jornalista Jamal Khashoggi no Consulado Saudita em Istambul em outubro de 2018, Epstein comentou sobre as acusações de que o príncipe herdeiro Mohammed teria ordenado o crime.
O diplomata respondeu: “Nuvem escura sobre a cabeça dele, e não vai embora.” Essa previsão logo se concretizou para Epstein. Poucas semanas depois, uma investigação do Miami Herald expôs detalhes de seu acordo judicial de 2008, levando à sua prisão em julho de 2019 por novas acusações. No mês seguinte, Epstein transferiu a propriedade de sua ilha para um fundo privado. Dois dias depois, ele foi encontrado morto em uma prisão federal em Nova York.





