China busca paridade global, mas poder financeiro dos EUA ainda impõe limites à sua ascensão como superpotência
A cúpula entre Donald Trump e Xi Jinping, embora sem grandes avanços, marcou um ponto importante para Pequim: a busca por um lugar de igualdade com os Estados Unidos no cenário mundial. A China tem demonstrado força em diversas áreas, desde a liderança em exportações impulsionada por seu poder industrial, até avanços notáveis em inteligência artificial e capacidades militares cada vez mais sofisticadas.
Em contrapartida, os Estados Unidos enfrentam narrativas de declínio, com envolvimento em conflitos internacionais, desgaste de alianças e aumento da dívida. No entanto, um analista aponta que, em pelo menos uma área crucial, a disputa financeira, a China ainda está significativamente atrás, permitindo que os EUA mantenham sua hegemonia por inércia.
Ruchir Sharma, presidente da Rockefeller International, em artigo para o Financial Times, destaca que a China, apesar de seu crescimento econômico expressivo, está estagnada em sua influência financeira global. Essa lacuna, segundo ele, impede que o país asiático alcance o status de superpotência completa. Conforme informação divulgada pelo Financial Times, Sharma estima que a China está entre 30 e 40 anos atrás da trajetória histórica de outras superpotências em termos financeiros.
Yuan Longe de Desafiar o Dólar Como Reserva Global
A história demonstra que o aumento da influência econômica de uma nação geralmente se reflete na adoção de sua moeda pelas reservas globais. Contudo, o yuan chinês, ou renminbi, representa apenas 2% dos ativos mantidos por bancos centrais mundialmente, um percentual irrisório se comparado aos 17% que a economia chinesa representa no PIB global. Da mesma forma, apenas 2% das faturas comerciais utilizam o yuan, apesar da China concentrar 15% do comércio mundial.
Em contraste, o dólar americano ainda domina amplamente, respondendo por cerca de 58% das reservas globais e 54% das faturas de comércio, mesmo com uma participação em declínio. Quase 90% das transações cambiais no mercado de balcão são realizadas em dólares, evidenciando o chamado “privilégio exorbitante” dos Estados Unidos.
Mercados Financeiros Chineses: Uma “Prisão Local”
Sharma descreve os mercados financeiros chineses como uma “prisão local”. Investidores estrangeiros possuem menos de 5% das ações e títulos na China. Os rigorosos controles de capital restringiram a expansão da oferta monetária doméstica e, consequentemente, a atratividade para investidores internacionais. Pequim teme a fuga de capital caso as restrições sejam flexibilizadas, mas Sharma argumenta que, sem maior liberdade cambial, o yuan dificilmente será visto como um investimento seguro.
Apesar dos desafios, a China tem buscado internacionalizar o yuan, com seu uso crescendo no comércio de petróleo e entre bancos centrais. Linhas de swap cambial disponibilizadas pelo Banco Popular da China atingiram o maior valor em dois anos. A SWIFT também aponta o yuan como a quinta moeda mais utilizada em pagamentos internacionais.
Abertura Financeira é Chave Para a Ambição Chinesa
Sharma reitera que a China precisa de uma abertura financeira mais ousada. Ele sugere que controles menos rígidos poderiam, na prática, estimular a entrada de capital, em vez de provocar sua saída. Sem essa flexibilização, a China continuará sendo uma superpotência incompleta, incapaz de desafiar plenamente a dominância financeira dos Estados Unidos e realizar sua ambição de se tornar uma potência global hegemônica.




