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Cena 2K: Seis meses após cancelamento, maior festival de rap do Brasil ignora artistas e fãs com calotes e falta de reembolsos

Cena 2K: Seis meses após cancelamento, maior festival de rap do Brasil ignora artistas e fãs com calotes e falta de reembolsos

A Neo Química Arena, em São Paulo, foi palco da 4ª edição do Cena 2K em novembro de 2025, o que deveria ser o ápice do rap nacional. No entanto, o que se viu foram atrasos, conflitos nos bastidores e o cancelamento do último dia de shows. Seis meses depois, o festival, outrora aclamado, continua a dever cachês a artistas, pagamentos a fornecedores e a ignorar os pedidos de reembolso do público.

Envolvidos na produção e artistas que se apresentaram relataram ao g1 a falta de recebimento dos valores combinados. Dezenas de pessoas de diversos estados brasileiros já recorreram à Justiça na tentativa de reaver o dinheiro investido nos ingressos e na participação no evento.

A Bilheteria Digital, empresa responsável pela venda dos ingressos, declarou que atuou apenas como intermediária, repassando integralmente os valores arrecadados para a organização do festival. Segundo a empresa, o contrato de prestação de serviços foi rescindido em comum acordo semanas antes do cancelamento definitivo. Conforme informações divulgadas pelo g1, os representantes do Cena Festival não retornaram os contatos da reportagem para esclarecimentos até o fechamento desta matéria.

A história de um festival promissor marcada por problemas financeiros

O Cena 2K teve sua primeira edição em 2019, com a participação de nomes como Quavo, do trio Migos, além de estrelas do rap nacional como Djonga e Filipe Ret. Em 2022, o evento se consolidou ainda mais, trazendo atrações internacionais como Playboi Carti e nomes fortes do cenário brasileiro como Racionais MC’s e Karol Conká. O festival era visto como um dos principais eventos da cultura hip-hop no país, misturando consistentemente artistas de renome internacional e nacional.

No entanto, rumores de dificuldades de fluxo de caixa e desentendimentos com investidores da Four Even, empresa do ramo sertanejo, já circulavam nos bastidores. O g1 apurou que a empresa considerava o retorno financeiro do festival baixo, o que teria gerado resistência à sua realização nos últimos anos.

Mudanças de data e a perda de parceiros cruciais

Em 2025, os problemas começaram antes mesmo do evento. Inicialmente previsto para os dias 28, 29 e 30 de novembro, o festival foi antecipado para 21, 22 e 23 de novembro devido a conflitos de agenda com jogos de futebol na Neo Química Arena. Essa alteração gerou insatisfação entre o público, com muitos tentando cancelar ingressos sem sucesso.

Maria Clara Alencar, que comprou dois ingressos na pré-venda por R$ 403, não pôde comparecer à nova data e solicitou reembolso. Sua advogada, Juciara Abreu, explicou que o Procon informou que a Bilheteria Digital era apenas intermediária, e a responsabilidade pelos reembolsos seria do produtor do evento. Até o momento, não houve retorno do festival, e o caso foi levado à Justiça buscando indenização por danos morais.

A situação se agravou com a rescisão da parceria com a Bilheteria Digital na semana anterior ao festival, impactando diretamente o caixa do evento. Além disso, entre o final de setembro e o início de outubro, o evento enfrentou problemas legais quando os advogados responsáveis pelas questões jurídicas e contratos com artistas encerraram a parceria. Segundo o g1 apurou, o rompimento ocorreu após um profissional judeu do escritório se sentir incomodado com negociações do Cena 2K com o rapper Kanye West, conhecido por declarações antissemitas.

Sem assessoria jurídica formal, as negociações finais e pagamentos de cachês foram conduzidos via WhatsApp, sem a devida formalização legal, aumentando a desconfiança nos bastidores.

O caos se instala nos dias de evento e o cancelamento final

Apesar das adversidades, o festival teve início em 21 de novembro de 2025, com mais de 120 artistas anunciados em dois palcos. A grade horária foi divulgada horas antes do evento, e fãs relataram shows de artistas menores com microfones cortados e vaias da plateia. O artista Ryu, The Runner, informou que seu show foi cancelado de última hora, sem explicações.

Nicole Kirsanoff, que trabalhou na produção, relatou ao g1 a falta de itens básicos desde o início, como pulseiras de acesso e o pagamento de fornecedores. Ao menos seis artistas não receberam seus cachês, como Yuri Redicopa, que deveria receber R$ 15 mil e recebeu apenas um sinal de R$ 700. A produção do artista investiu mais de R$ 40 mil e arcou com custos de pirotecnia, buscando reaver cerca de R$ 14 mil na Justiça. A rapper Nanda Tsunami também usou as redes sociais para cobrar seu cachê.

No segundo dia, a falta de divulgação oficial dos horários levou artistas a anunciarem suas apresentações por conta própria, muitas vezes com informações conflitantes. Grandes nomes internacionais, como Young Thug, A$ap Ferg, Oodaredevil e Zukenee, tiveram suas apresentações canceladas de última hora por “motivos internos e externos”. Lil Gotit publicou que não viria por “razões do festival”.

No sábado, uma briga generalizada entre a equipe do rapper Major RD e seguranças da arena resultou em danos a vidros e outros objetos, gerando problemas com a administração da Neo Química Arena. Major RD afirmou que a confusão começou quando ele foi impedido de acessar seu camarim.

A falta de pagamento de estrutura básica, como primeiros socorros e montagem de palcos, além de dívidas com fornecedores e artistas, gerou incerteza para o domingo. Sem informações claras sobre a realização das apresentações, a Neo Química Arena publicou uma nota às 13h informando o cancelamento do evento após vistoria da Polícia Militar. A PM constatou a ausência dos serviços médicos necessários, que eram de responsabilidade da organização do Cena 2K.

Nicole Kirsanoff relatou que, dos cerca de R$ 3 mil acordados por seu trabalho na produção, ainda aguarda o pagamento de R$ 600. “Era tudo muito confuso, muito bagunçado. Por excesso de artistas, eles foram forçando que o evento começasse cada vez mais cedo, até que chegou num ponto que teve artista se apresentando com os portões fechados. Eles não pagaram seguranças, produtores, nada”, explicou.

Processos e a busca por justiça para fãs e artistas

Seis meses após o ocorrido, o Cena 2K acumula dezenas de processos judiciais, a maioria focada na cobrança de reembolsos de ingressos. Ícaro Lamas, advogado que representa diversos consumidores lesados, declarou ao g1 que ainda não obteve retorno nem do evento nem da Bilheteria Digital. “O festival deixou todos os consumidores no escuro, sem transparência nenhuma sobre os cancelamentos”, afirmou Lamas, ressaltando que o Código de Defesa do Consumidor garante o direito ao reembolso, ressarcimento de gastos e indenização por danos morais diante da falha de serviço.

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