Peru: Um Presidente Desafiador em um Congresso Instável
O Peru se aproxima de um novo capítulo em sua turbulenta política. Quem quer que vença o segundo turno das eleições presidenciais neste domingo, 7 de julho, terá pela frente um desafio monumental: governar com um Congresso que se mostrou implacável, destituindo quatro dos nove presidentes que passaram pelo poder nos últimos dez anos.
Este cenário, que remete a um parlamentarismo em um sistema presidencialista, é resultado da crescente força do Legislativo peruano desde 2016. A atuação do Congresso, que deveria ser um pilar do equilíbrio entre os poderes, transformou-se em um motor de instabilidade para o país, gerando um profundo descontentamento popular.
A insatisfação com o Congresso é tão expressiva que, conforme indica pesquisa do Instituto de Estudos Peruanos de maio de 2025, 93% dos peruanos desaprovam sua atuação, um índice que se mantém acima de 90% desde março de 2023. Esses dados, que possuem margem de erro de 2,8 pontos percentuais, foram divulgados em reportagem, evidenciando a crise de representatividade.
Congresso Desafiador e a Reativação do Senado
A desaprovação popular se reflete nas urnas. A campanha #PorEstosNo, que visava impedir a reeleição de políticos, foi bem-sucedida em manter apenas 24 dos 130 membros do Congresso em seus cargos. No entanto, muitos legisladores parecem ignorar o clamor das ruas, como evidenciado pela aprovação da recriação do Senado em 2024.
Essa proposta, extinta pelo ditador Alberto Fujimori em 1992, foi rejeitada por 90,5% da população em um referendo de 2018. Apesar disso, a Câmara Alta voltou a funcionar em julho deste ano, dividindo especialistas sobre seu impacto na estabilidade política. Alguns argumentam que o Senado fortaleceria ainda mais o Legislativo, enquanto outros acreditam que a necessidade de aprovação em duas casas poderia trazer mais equilíbrio.
Fragmentação Política e a Busca por Estabilidade
Os resultados do primeiro turno legislativo indicam uma configuração política fragmentada. O partido Força Popular, de Keiko Fujimori, manteve a maior bancada na Câmara dos Deputados (41 de 130) e terá o maior número de assentos no Senado (22 de 60). Em seguida, aparece o partido Juntos pelo Peru, de Roberto Sánchez, com 32 cadeiras na Câmara e 14 no Senado.
Embora o Força Popular tenha aumentado sua representação em relação a 2021, a configuração atual está longe da hegemonia de 2016, quando o partido obteve 73 das 130 cadeiras. A aposta é que a necessidade de negociação em duas instâncias e com menor margem de manobra possa, paradoxalmente, trazer alguma estabilidade ao país.
Desafios Persistentes e Promessas de Renovação
Apesar das mudanças legislativas, muitos dos problemas estruturais que afetam o Peru permanecem intocados. O alto nível de corrupção, a falta de filtros na criação de partidos políticos e a ausência de siglas genuinamente representativas da população continuam sendo desafios cruciais.
Em seus discursos de encerramento de campanha, ambos os candidatos apresentaram suas visões para o futuro. Roberto Sánchez prometeu unir forças para formar “a nova bancada do governo do povo” e “restaurar a democracia e o equilíbrio entre os Poderes”, defendendo uma nova Constituinte. Keiko Fujimori, por sua vez, declarou que sua gestão nomeará “os melhores especialistas, independentemente de filiação política”, visando um “governo tecnocrático e, claro, um governo de cinco anos”. A capacidade de cumprir essas promessas dependerá da habilidade de navegar no complexo e volátil cenário político peruano.





