AIEA exige acesso total ao programa nuclear iraniano para determinar intenções de Teerã sobre a bomba atômica
A única maneira de saber com certeza se o Irã está desenvolvendo uma bomba atômica é através do acesso irrestrito de inspetores da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) às suas instalações nucleares. Essa é a posição enfática do diretor-geral da agência, Rafael Grossi, que destacou a importância da transparência para garantir o cumprimento das obrigações internacionais.
Grossi ressaltou que, desde ataques anteriores ao programa nuclear iraniano em 2025, a AIEA tem enfrentado restrições de acesso, o que dificulta a verificação do cumprimento do Tratado de Não Proliferação Nuclear. A declaração foi feita em Viena, durante uma coletiva de imprensa, em meio a reuniões do Conselho de Governadores da AIEA.
Uma resolução proposta pelos Estados Unidos, exigindo que o Irã permita o acesso de inspetores, deve ser votada nesta semana. Apesar das acusações do Irã de que Grossi estaria apoiando os EUA, o diretor-geral da AIEA reitera que sua posição se baseia em relatórios técnicos e que a solução para a crise deve ser diplomática.
A importância do acesso irrestrito para a AIEA
O diretor-geral da AIEA, Rafael Grossi, enfatizou que a falta de acesso completo às instalações nucleares do Irã, especialmente após os eventos de 2025, impede a agência de verificar se o país está cumprindo suas obrigações. Essa ausência de transparência levanta sérias preocupações sobre a natureza do programa nuclear iraniano.
A AIEA monitora de perto a quantidade de urânio enriquecido que o Irã possui. Atualmente, estima-se que o regime tenha em mãos 441 kg de urânio enriquecido a 60%. Segundo Jacek Bylica, chefe de gabinete de Grossi, nenhum outro país no mundo detém tal quantidade de material, o que aumenta a apreensão sobre seu destino e possível uso.
A questão do acesso é crucial para determinar se o Irã está, de fato, buscando desenvolver armas nucleares ou se suas atividades se restringem a fins pacíficos. A falta de dados concretos, devido às restrições impostas, torna impossível para a AIEA oferecer um parecer definitivo.
Diplomacia e a busca por soluções pacíficas
Grossi defende veementemente que a resolução da crise nuclear iraniana deve ser alcançada por meio da diplomacia. Ele mencionou que líderes como o presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, poderiam desempenhar um papel importante nesse processo, facilitando o diálogo e a busca por acordos.
O diretor-geral também aproveitou para reiterar sua plataforma para a chefia da ONU, destacando seu estilo de trabalho voltado para a reunião de partes em conflito. Ele citou o trabalho da AIEA na Ucrânia, que conseguiu manter um frágil cessar-fogo em torno da usina de Zaporizhzhia, como um exemplo de sua capacidade de mediar crises.
Tensões no Oriente Médio e o impacto no programa nuclear iraniano
As recentes escaladas de tensão no Oriente Médio, incluindo o conflito entre Israel e Irã, complicam ainda mais a busca por transparência no programa nuclear iraniano. Grossi admitiu ter contatos esporádicos com o Ministério das Relações Exteriores do Irã, mas que os canais de comunicação estão severamente limitados.
O conflito recomeçou após uma trégua iniciada em abril, com ataques mútuos entre Irã e Israel. A questão nuclear iraniana é central nesse conflito. Um acordo anterior, patrocinado pelos EUA em 2018, previa que o Irã limitasse seu enriquecimento de urânio e prometesse não construir uma bomba atômica por 15 anos, mas os Estados Unidos se retiraram do acordo.
O papel dos EUA e o acordo nuclear de 2018
A decisão do ex-presidente americano Donald Trump, em 2018, de retirar os EUA do acordo nuclear com o Irã, teve consequências significativas. O acordo previa que Teerã limitasse seu enriquecimento de urânio e se comprometesse a não construir uma bomba atômica por 15 anos.
A retirada americana e os subsequentes ataques às instalações nucleares iranianas, que Trump chegou a gabar-se de ter “obliterado” as capacidades atômicas do país, aumentaram a desconfiança e dificultaram ainda mais a fiscalização da AIEA. A falta de acesso completo às instalações bombardeadas em 2025 e neste ano é um ponto de constante queixa da agência.
O risco de o regime iraniano obter a bomba atômica foi um dos motivos alegados para a guerra iniciada em fevereiro contra o Irã. A situação atual exige um esforço renovado por transparência e diálogo para evitar uma escalada ainda maior no Oriente Médio.





