Conflitos Ignorados Exibem Hierarquia Racial na Atenção Internacional
Em 2025, o mundo testemunhou um cenário de conflitos armados alarmante, com a invasão da Rússia à Ucrânia e a ofensiva de Israel em Gaza figurando entre os mais letais. Paralelamente, a guerra civil no Sudão também se destacou por sua brutalidade. Um levantamento do Instituto de Pesquisa para a Paz de Oslo (Prio) aponta que esses três conflitos foram os principais responsáveis pelas 245 mil mortes diretas registradas no ano, sem contabilizar as vítimas de doenças e falta de acesso a tratamentos.
Apesar de não haver uma hierarquia oficial entre as guerras, é inegável que dois desses cenários de violência recebem uma atenção desproporcional da comunidade internacional e da imprensa global. Essa disparidade na cobertura levanta sérias questões sobre a existência de uma hierarquia racial na forma como o mundo reage a crises humanitárias. O estudo do Prio também revela que a África concentrou 29 dos 65 conflitos armados envolvendo Estados, superando outras regiões. O Oriente Médio atingiu seu pico de conflitos desde 1946, e a Ásia registrou os níveis mais altos desde 1994. Em contraste, o Haiti, praticamente ausente do debate internacional, viu as mortes em conflitos saltarem de cerca de 200 para mais de 1.200 em apenas um ano.
Conforme a análise divulgada pelo Instituto de Pesquisa para a Paz de Oslo, a **guerra da Ucrânia**, por exemplo, mobiliza diplomacia imediata, cobertura diária detalhada e sucessivas análises estratégicas. Em contrapartida, o massacre de El Fasher, no Sudão, que estima-se ter causado quase 60 mil mortos em uma única semana de outubro de 2025, permaneceu quase invisível no debate internacional. Essa observação, longe de tentar estabelecer uma competição entre tragédias, expõe como a **hierarquia da atenção** frequentemente acompanha a **hierarquia racial global**, um fenômeno já teorizado por pensadores como Frantz Fanon em “Os Condenados da Terra”, onde o racismo subjuga corpos e justifica a violência.
Globalização e a Falsa Promessa de Paz
O estudo também aponta para uma transformação geopolítica significativa. Nos anos 1990, a crença era de que a expansão do comércio internacional e da interdependência econômica reduziria os incentivos para a guerra, com mercados integrados promovendo estabilidade. No entanto, os dados de 2025 desmentem essa hipótese, com o registro de oito conflitos entre Estados, o maior número desde o fim da Segunda Guerra Mundial, muitos deles envolvendo países com intensa relação comercial.
Nacionalismos Exacerbados e o Papel do Mercado
A realidade atual demonstra que o **comércio global coexiste com nacionalismos exacerbados**, a intensa competição por recursos e uma indústria armamentista em expansão. A globalização do mercado, como alertava Milton Santos, não elimina a **hierarquização, exclusões e desigualdades**. Essa dinâmica é agravada pela mistura de guerras civis, conflitos internacionais, milícias e crime organizado, além da crescente ameaça à soberania de países, especialmente na América Latina, sob a justificativa de combater facções agora rotuladas como terroristas.
Colonialismo e Racismo no Olhar sobre Conflitos
Por trás desses conflitos, existem não apenas interesses econômicos e estratégicos, mas também **colonialismo e racismo**. O mundo continua a atribuir valores distintos a corpos diferentes, refletindo uma persistente desigualdade global. A atenção seletiva a determinados conflitos, em detrimento de outros igualmente devastadores, é um sintoma claro dessa problemática, onde a vida de alguns é considerada mais valiosa do que a de outros.





