G7 se reorganiza em torno de agenda, humor e vontades de Trump
O G7 de 2026, realizado em Évian, França, apresentou um cenário incomum onde a agenda, o humor e as vontades de Donald Trump pareceram ditar o curso do encontro das sete maiores economias do mundo. A cúpula, que deveria ser um palco para decisões multilaterais, revelou uma adaptação significativa dos demais líderes para acomodar a figura do presidente americano.
Desde a chegada atrasada de Trump a uma sessão sobre crescimento econômico, onde ele se autoproclamou “o chefe” em tom de brincadeira, até a flexibilização de datas para coincidir com seu aniversário, o evento demonstrou uma clara reconfiguração em torno de suas preferências. Essa dinâmica, segundo a análise da Euro Radar, newsletter da Folha, marca um G7 mais focado em um indivíduo do que em acordos coletivos.
A forma como o encontro foi organizado, incluindo a escolha de convidados e a estrutura dos comunicados, aponta para uma estratégia de acomodação, onde a unidade do grupo é mantida através da adaptação às expectativas de Trump. Conforme informação divulgada pela Euro Radar, o G7 de 2026 foi parcialmente desenhado em torno da data de nascimento de um presidente, um fato mais raro em encontros multilaterais.
O Aniversário que Virou Pauta e a Bajulação Constante
A cúpula em Évian teve suas datas ajustadas para acomodar o aniversário de 80 anos de Donald Trump, que chegou apenas na segunda-feira, 15 de julho. A recepção pelo presidente francês, Emmanuel Macron, foi marcada por um aperto de mão rápido, contrastando com o tratamento reservado à primeira-dama, Brigitte Macron, com quem Trump protagonizou um aperto de mão prolongado que viralizou.
O tema do aniversário de Trump se estendeu por toda a semana, com líderes como o canadense Mark Carney compartilhando publicamente ter dado um presente ao presidente americano. Até mesmo líderes em conflito, como Zelensky e Putin, teriam telefonado separadamente para parabenizá-lo. Durante as reuniões, Trump foi reiteradamente bajulado, evidenciando a prioridade dada ao seu humor e vaidade.
Documentos Sob Medida e a Busca por Unidade Forçada
Para manter Trump na sala, Macron optou por uma série de declarações temáticas em vez de um comunicado final único, um modelo já utilizado em encontros anteriores sob a administração Trump. Essa abordagem serviu como um “airbag” para as contradições americanas, permitindo a divulgação de textos que reconheciam avanços de Kiev na Ucrânia e prometiam reforçar sanções contra a Rússia.
No entanto, o preço da unidade ficou evidente. Um documento justificou novas medidas contra Moscou com a afirmação de que “este é o momento adequado para avançar com medidas adicionais, já que o presidente Trump fechou um acordo que apoiamos para reabrir o estreito de Hormuz”. A menção nominal a um líder específico para justificar uma posição coletiva é incomum e revela a extensão da influência individual.
Convidados Estratégicos e a Resistência de Alguns Parceiros
A expansão do G7 com a presença de países como Brasil, Índia, Coreia do Sul, Quênia, Egito, Catar e Emirados Árabes Unidos é vista por analistas como uma estratégia de “redundância”, buscando outras fontes de estabilidade caso Washington se torne um parceiro imprevisível. Essa ampliação reflete a necessidade de diversificar alianças e dependências diplomáticas.
Nem todos os convidados aderiram integralmente à agenda proposta. O Brasil, por exemplo, endossou apenas 3 dos 8 documentos temáticos, recusando-se a assinar declarações sobre parcerias internacionais para o desenvolvimento e crescimento econômico equilibrado, segundo o próprio governo, para não desagradar Washington ou evitar temas sensíveis. A Índia também manteve distância de parte da pauta.
O Poder da Ausência de Cobrança e a Nova Realidade do G7
O G7 de 2026 em Évian demonstrou uma notável tolerância à influência de Donald Trump, onde a ausência de cordialidade dele não gerou cobranças. A percepção geral é que o grupo, que representa mais de um quarto do PIB mundial em paridade de poder de compra, se reorganizou em torno de um único líder, em vez de impor suas próprias regras e prioridades.
Essa acomodação, segundo a análise da Euro Radar, sinaliza uma mudança significativa desde 2018, quando o G7 tentava conter Trump. Agora, o grupo se reorganiza em torno dele, um reflexo da perda de influência do Ocidente e da ascensão de uma dinâmica onde o poder de um indivíduo parece superar a força das instituições multilaterais. A multipolaridade, em vez de se consolidar, parece ter perdido espaço para a influência concentrada em um único líder.





