A Bolívia enfrenta uma crise de desabastecimento sem precedentes, onde voos domésticos se tornaram a principal rota para abastecer cidades como La Paz.
Frangos frescos, carne bovina e suína, antes acessíveis, agora chegam por via aérea a preços exorbitantes, transformando o transporte aéreo em um mercado improvisado. A situação é reflexo dos intensos protestos que bloqueiam as estradas do país há mais de um mês, impedindo o fluxo normal de mercadorias.
Em La Paz, a capital, um frango que antes custava 50 bolivianos agora é vendido por 110 bolivianos em “açougues móveis” montados em vans. A escassez eleva os custos de transporte, impactando diretamente o bolso do consumidor, que vê o preço de itens básicos disparar.
Essa nova realidade de abastecimento aéreo é detalhada em reportagem que mostra a transformação do Aeroporto Internacional Viru Viru, em Santa Cruz de la Sierra, em um ponto crucial para a distribuição de alimentos. Caixas de isopor, antes destinadas a viagens de lazer, agora transportam carne e frango congelados, vindos de regiões produtoras como Santa Cruz, que responde por quase metade da produção pecuária boliviana.
Conforme anunciado por um alto-falante improvisado, os frangos que chegam a La Paz vêm de Santa Cruz de la Sierra, onde o mesmo produto pode ser encontrado por cerca de 35 bolivianos. Essa diferença de mais de 200% evidencia o impacto dos bloqueios nas estradas e a dependência crescente do transporte aéreo para suprir a demanda.
Aeroporto se Torna Mercado Alternativo para Alimentos
O Aeroporto Internacional Viru Viru, em Santa Cruz de la Sierra, tornou-se um centro logístico alternativo. Caixas de isopor vazias circulam nas esteiras de bagagem doméstica, sendo preenchidas com produtos frescos para serem levados a outras cidades. Lojas de souvenirs agora dividem espaço com a venda de caixas térmicas, demonstrando a alta demanda por esse tipo de embalagem para o transporte de alimentos.
Uma caixa de 50 litros, por exemplo, custa 175 bolivianos (aproximadamente R$ 130), e uma de 25 litros sai por 95 bolivianos (cerca de R$ 70). Passageiros empilham essas caixas nos carrinhos de bagagem, muitas vezes com nomes escritos em canetas para evitar confusões na retirada. Para driblar as regras das companhias aéreas, os produtos viajam congelados, mas sem gelo para evitar vazamentos.
Passageiros Viram Transportadores em Meio à Crise
Jovens como Khelen Maita, de 21 anos, utilizam os voos para transportar alimentos, tanto para consumo próprio quanto para venda. Ela relata ter levado 24 frangos para La Paz, comprados a 37 bolivianos cada e revendidos por cerca de 100, cobrindo os custos da passagem e obtendo um pequeno lucro. A passagem aérea entre Santa Cruz e La Paz pode custar cerca de 1.200 bolivianos (R$ 900) com antecedência.
Nora Alanoca, boliviana radicada na Argentina, aproveitou uma longa escala em Santa Cruz para comprar frango, carne, linguiça e embutidos para parentes em La Paz. Ela destaca que os produtos foram comprados congelados e acredita que aguentarão o curto trajeto de avião.
Governo Tenta Solucionar o Caos
A Bolívia registrou uma diminuição nos bloqueios de estradas nas últimas semanas, com menos de 50 interdições. Em resposta à crise, o presidente Rodrigo Paz assinou um acordo com a Confederação dos Trabalhadores da Bolívia (COB) e declarou estado de emergência no país, o que permite o uso das forças militares para liberar os acessos.
Apesar dos esforços, o desabastecimento persiste. Moradores de La Paz formaram filas durante a madrugada para comprar frango a 18 bolivianos o quilo, com o governo afirmando que os custos operacionais do transporte aéreo foram cobertos pelos Estados Unidos para viabilizar esse preço. Até mesmo Santa Cruz, antes menos afetada, agora enfrenta filas quilométricas em postos de gasolina, gerando apreensão sobre o abastecimento futuro.





