Novo personagem da ultradireita italiana, Roberto Vannacci, surge como desafio para a primeira-ministra Giorgia Meloni, rachando a coalizão governista com seu movimento “Futuro Nacional”.
Um ex-general do Exército Italiano, Roberto Vannacci, emergiu como uma força disruptiva na política italiana, conquistando espaço entre eleitores e representando um novo problema para a primeira-ministra Giorgia Meloni. Em fevereiro, Vannacci deixou a Liga, partido do vice-premiê Matteo Salvini, para fundar seu próprio movimento, o “Futuro Nacional”, com o objetivo de disputar as eleições de 2027.
O novo movimento político se autodenomina uma direita “de verdade”, “convicta” e “pura”, com diretrizes que incluem a exaltação da identidade italiana, a defesa da família tradicional composta por “um homem e uma mulher” e a promoção da remigração, com a deportação forçada de estrangeiros. Essas posições o colocam em rota de colisão com setores mais moderados da política italiana.
As declarações homofóbicas, machistas e xenófobas de Vannacci têm gerado manchetes nacionais. Ele expressou contrariedade ao feminicídio e questionou a geração de direitos para a comunidade LGBTQIA+, afirmando: “Não entendo por que o fruto de uma orientação sexual – e, portanto, de um gosto pessoal – deveria gerar direitos”. Essas falas, segundo o cientista político Piero Ignazi, professor aposentado da Universidade de Bologna, refletem uma visão “muito nacionalista de conotação racista, não só anti-imigração”, e uma “hostilidade contra tudo o que não é puramente italiano”. Conforme informação divulgada pela Folha, Ignazi classifica o ex-general como extrema direita.
“Futuro Nacional” Ganha Tração nas Pesquisas e Atrai Parlamentares
Desde sua fundação em fevereiro, o “Futuro Nacional” tem apresentado um crescimento notável nas pesquisas de intenção de voto. Segundo um levantamento divulgado na última segunda-feira (15), o movimento registrou 5,3% das preferências, alcançando um empate técnico com a Liga, seu antigo partido. Além disso, Vannacci já atraiu oito parlamentares de partidos que compõem a coalizão governista de Meloni.
A saída de Vannacci da Liga representou a primeira rachadura significativa no bloco que sustenta o governo de Meloni. Atualmente, a coalizão, composta por quatro partidos, detém 41,5% das intenções de voto, enquanto a oposição, formada pelo centro-esquerda e o Movimento Cinco Estrelas, soma 41,9%. O percentual alcançado por Vannacci pode, portanto, impactar o desempenho da coalizão nas próximas eleições, ainda sem data definida.
O Livro que Impulsionou a Carreira Política de Vannacci
A ascensão política de Roberto Vannacci, 57 anos, ganhou impulso após a publicação de seu livro autopublicado em 2023, “Il Mondo al Contrario” (O Mundo de Cabeça para Baixo). Comercializado pela Amazon, o livro de quase 400 páginas é uma compilação de declarações consideradas racistas e homofóbicas por muitos. Vannacci escreveu, por exemplo: “Caros homossexuais, vocês não são normais, aceitem isso! Não apenas a natureza demonstra isso, ao permitir que os seres saudáveis ‘normais’ se reproduzam, mas a sociedade também: vocês representam uma minúscula minoria”.
Em outra declaração polêmica, Vannacci comentou sobre a jogadora de vôlei Paola Egonu, negra e nascida na Itália de pais nigerianos: “Paola Egonu tem a cidadania italiana, mas é evidente que seus traços somáticos não representam a italianidade”. O livro rapidamente se tornou um dos mais vendidos na categoria ensaio na plataforma, catapultando o nome do ex-general para o cenário nacional.
Desafio à Moderação de Meloni e Alinhamento Internacional
A intenção de Vannacci é clara: atrair votos dos eleitores mais radicais da direita, muitos dos quais estariam desiludidos com o tom mais moderado adotado por Giorgia Meloni desde que assumiu o poder. “Vannacci é um problema para a coalizão de direita, se conseguir levar adiante seu movimento. Porque haverá um mais à direita que rouba votos e a enfraquece”, avalia Piero Ignazi.
Apesar de Meloni ter raízes em partidos com ligações ao pós-fascismo, ela tem se posicionado como conservadora desde sua eleição em 2022. Bastidores da imprensa italiana indicam que ela tem rejeitado a ideia de incluir o partido de Vannacci em um eventual futuro governo. Vannacci, que também se declara pró-Rússia, deixou recentemente o grupo Patriotas no Parlamento Europeu, que inclui a Liga e o partido de Marine Le Pen, para se juntar ao Europa das Nações Soberanas, ao lado do Alternativa para a Alemanha (AfD).
A trajetória de Vannacci na política começou após sua suspensão do Exército, quando foi convidado por Matteo Salvini para ingressar na Liga. Na eleição para o Parlamento Europeu em 2024, Vannacci obteve 550 mil votos, ficando em segundo lugar na Itália. Contudo, seu relacionamento com a liderança da Liga sempre foi tenso devido às suas posições extremistas, levando-o a perceber que seu espaço para uma política mais pessoal era limitado dentro do partido, o que o motivou a fundar seu próprio movimento.





