Cubanos vendem tudo para cruzar a Amazônia e buscar refúgio no Brasil, enfrentando rotas perigosas por ar, terra e água.
No extremo norte do Brasil, a cidade de Oiapoque, no Amapá, se tornou um ponto de entrada crucial para migrantes cubanos que buscam refúgio no país. Esses viajantes enfrentam jornadas extenuantes, atravessando a densa floresta amazônica e utilizando diversos meios de transporte, em uma busca desesperada por melhores condições de vida.
A situação em Cuba, marcada por crises econômicas e políticas severas, tem impulsionado um êxodo sem precedentes. Relatos apontam para apagões constantes, desabastecimento generalizado e a desvalorização da moeda, fatores que levam muitos a tomar a difícil decisão de deixar tudo para trás.
Esses fluxos migratórios, embora intensos, muitas vezes operam em zonas cinzentas e enfrentam a exploração de redes criminosas que lucram com a vulnerabilidade dos migrantes. A Polícia Federal (PF) investiga essas atividades, que incluem extorsão e contrabando. Conforme dados do Observatório das Migrações Internacionais, em 2025, os pedidos de refúgio de cubanos superaram os de venezuelanos, totalizando 41,9 mil solicitações.
A complexa rota migratória pela Amazônia
A travessia para o Brasil envolve uma série de etapas complexas. Iniciando com voos até Paramaribo, capital do Suriname, os migrantes seguem por estradas em vans e carros até o rio Oiapoque. A travessia fluvial, em pequenas embarcações conhecidas como catraias, marca a entrada em território brasileiro. De Oiapoque, a jornada continua por rodovias até Santana, cidade vizinha a Macapá, para então pegar barcos comerciais em direção a Belém, e, finalmente, ônibus para destinos finais em diversas partes do Brasil.
Essa rota, embora longa e árdua, é escolhida por muitos para evitar exigências de visto mais rigorosas em outros países, como o Panamá. A família de Antonio Jimenez, por exemplo, vendeu sua casa e móveis em Havana para custear os cerca de US$ 6.000 necessários para chegar ao sul do Brasil, em Joinville, onde esperam encontrar compatriotas e oportunidades de trabalho.
A situação em Cuba é descrita como insustentável. “Em Cuba não se vive, só se sobrevive. E piorou muito”, relata Antonio, ecoando o sentimento de muitos que deixam a ilha. A falta de itens básicos como combustível, água potável, alimentos e comunicação, aliada à impossibilidade de protesto, motiva a emigração.
Exploração e extorsão nas rotas de fronteira
As redes que operam a logística dessa travessia são suspeitas de envolvimento em crimes como organização criminosa, contrabando de migrantes, extorsão e lavagem de dinheiro. A Polícia Federal no Amapá já realizou buscas e apreensões e monitora suspeitos brasileiros com tornozeleiras eletrônicas. A extorsão se manifesta em todos os elos da cadeia, desde a alimentação até o transporte.
O custo da travessia é inflado para os cubanos. Enquanto um trajeto de Oiapoque a Macapá custa R$ 250 para brasileiros, os migrantes são cobrados R$ 1.000, com relatos de valores chegando a US$ 350 (aproximadamente R$ 1.800). A travessia de catraia, que normalmente custa R$ 20, pode saltar para R$ 100 ou até US$ 100 (R$ 520).
Esses grupos, muitas vezes formados por “picapeiros” e catraieiros locais, atuam com grande discrição, sendo descritos pela PF como “fantasmas”. Eles coordenam os desembarques e o transporte dos migrantes, cobrando valores exorbitantes e dificultando a comunicação com os recém-chegados.
O destino final: busca por dignidade e trabalho
Após a chegada em Oiapoque, os cubanos são encaminhados à Polícia Federal para formalizar os pedidos de refúgio. Com o protocolo de refúgio em mãos, eles obtêm o direito de circular e trabalhar legalmente no Brasil, o que representa um alívio e a esperança de uma vida mais digna.
O fluxo migratório é intenso, com cerca de 80 cubanos desembarcando em Oiapoque em um único dia. Em 2025, pelo menos 8.400 cubanos registraram entrada na cidade para solicitar refúgio. Em 2026, até maio, o número chegou a 1.700, indicando uma continuidade do fluxo, embora novas rotas, como por Roraima, tenham surgido.
A decisão de buscar o Brasil como refúgio é motivada pela percepção de que o país oferece mais oportunidades em comparação com os Estados Unidos, que se tornaram um destino economicamente inviável e com restrições de entrada. A esperança é encontrar estabilidade e a chance de reconstruir suas vidas longe da crise cubana.
Um novo capítulo na Amazônia brasileira
A presença crescente de migrantes cubanos em Oiapoque reflete uma nova dinâmica na região de fronteira amazônica. O porto, antes palco de atividades como garimpo e pesca, agora testemunha o drama e a resiliência de centenas de famílias buscando um futuro melhor.
A jornada, que começa com a venda de bens em Cuba, passa por perigos e extorsões na América do Sul, e culmina na busca por refúgio no Brasil. A história de Antonio, Mara, Daniel Alejandro, Diego e Ernesto Remedios, que seguiam juntos em direção a Santana, é apenas um exemplo da realidade enfrentada por muitos cubanos.
Ernesto, que almeja trabalhar como motorista de Uber em Curitiba, onde sua família já reside, expressa a desilusão com a situação em seu país: “As coisas não vão melhorar, não tenho fé nisso. Tudo está pior. O que fazer sem emprego e sem dinheiro?” Essa pergunta resume a angústia que impulsiona tantos a cruzar o continente em busca de respostas.





