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Famílias Venezolanas Lideram Busca por Corpos em Escombros e Revoltadas Exigem Respeito das Autoridades

A dor e a revolta tomam conta de La Guaira, Venezuela, onde famílias buscam incessantemente por entes queridos desaparecidos após terremotos devastadores. O cenário é de destruição e desespero, com autoridades sendo criticadas pela lentidão e insuficiência nas operações de resgate.

O que antes era um refúgio de descanso, a praia em La Guaira, na Venezuela, transformou-se em um cenário de completa destruição após os recentes terremotos. O mar caribenho, de um azul intenso, agora serve de pano de fundo para a tragédia, com o odor de corpos em decomposição e o som de tratores misturando-se ao choro e à angústia de familiares.

Os números oficiais indicam ao menos 1.450 mortos na região, mas a contagem em meio ao caos é incerta. Em edifícios como o Aguja Azul, listas improvisadas com nomes de desaparecidos e contatos são a única esperança de quem busca informações, demonstrando a ausência de um sistema oficial organizado para lidar com a catástrofe.

As famílias venezolanas se tornaram a linha de frente nas buscas por corpos, assumindo um papel que deveria ser das autoridades. Elas se trajam como podem e iniciam um trabalho incessante nos escombros, movidas pela necessidade de um desfecho e pela indignação com a resposta governamental. Conforme informações divulgadas, equipes de resgate muitas vezes se retiram ao constatar a baixa probabilidade de encontrar sobreviventes, deixando o fardo para os entes queridos.

Famílias na linha de frente da busca por dignidade

Dajameles Ramires, por exemplo, está no que restou do edifício Aguja Azul com dez membros de sua família. Eles buscam por parentes que foram pegos pelo desabamento, incluindo uma irmã, uma sobrinha que havia comemorado seus 15 anos e a amiga de outra sobrinha, que foi resgatada viva após um milagre. A família foi encontrada no corredor do andar onde moravam, tentando fugir do prédio.

“No final ficamos nós, as famílias, porque precisamos de um desfecho”, relatou Dajameles, expressando a frustração com a retirada das equipes de resgate. A busca por entes queridos se torna um ato de desespero e de exigência por dignidade para os que se foram, em um cenário onde o Estado parece ausente.

Confronto e indignação em La Guaira

A lentidão e a insuficiência do trabalho de busca levaram a confrontos entre familiares e agentes de segurança no edifício Luiza Cáceres de Arismendi. Os moradores formaram um cordão humano para impedir a saída de veículos e maquinário pesado, exigindo que as buscas por seus parentes continuem. O edifício, parte de um complexo residencial construído na era de Hugo Chávez, está prestes a desabar completamente.

“Até quando vamos esperar?”, “Estamos sozinhos, sem ajuda de ninguém, estamos cansados”, gritam os familiares, evidenciando a revolta com a falta de apoio estatal. A população sente que precisa agir por conta própria para dar um destino digno aos seus mortos, em meio à destruição que expõe os interiores dos apartamentos como uma gigantesca casa de bonecas.

Resgates milagrosos e a realidade cruel

Apesar do cenário desolador, houve casos de resgates milagrosos. Dois meninos de 11 anos foram retirados com vida após dias sob os escombros. A líder interina, Delcy Rodríguez, compartilhou um vídeo de um dos resgates, afirmando que “Nessas horas, cada vida representa esperança para a Venezuela”. No entanto, esses são casos isolados em meio à quase nula esperança de encontrar sobreviventes em La Guaira.

Enquanto a reportagem esteve na cidade, um corpo foi encontrado e, de forma improvisada, envolto em lençóis e cobertores infantis achados nos próprios escombros. As famílias, mesmo sabendo onde os corpos estão, muitas vezes não conseguem acessá-los devido aos destroços. Moscas e o mau cheiro tornam-se tristes guias para a concentração das buscas.

Estruturas comprometidas e incertezas futuras

Em La Guaira, centenas de desabrigados se acomodam em praças, vasculhando pilhas de roupas para se proteger do sol forte. O centro da cidade tem comércios fechados e pichados com “Já nos saquearam”, indicando a onda de saques após os terremotos. A estrutura de muitos prédios foi comprometida, e avaliações iniciais indicam que mais de 90% das estruturas podem ter sofrido danos sérios.

O presidente da Assembleia Nacional, Jorge Rodríguez, informou que ao menos 189 edifícios colapsaram e mais de 580 sofreram danos em todo o país. Ativistas e a oposição pedem que engenheiros civis se voluntariem para avaliar a segurança das residências, pois muitos prédios, mesmo em Caracas, operam com rachaduras e danos estruturais desconhecidos. A cidade de La Guaira, que em 1999 sofreu com enchentes e deslizamentos que mataram milhares, agora enfrenta mais um capítulo trágico, com projeções da ONU indicando que 6,7 milhões de pessoas podem ter sido afetadas e mais de 50 mil desaparecidas.

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