EUA celebram 250 anos em meio a debates sobre a identidade nacional e a revisão histórica
Os Estados Unidos se aproximam de seu 250º aniversário, marcado para o 4 de julho, e a data redonda, um quarto de milênio de independência, tem provocado intensos debates sobre o significado de sua trajetória. A celebração, longe de ser unânime, divide opiniões entre a exaltação patriótica e uma análise mais crítica e revisionista do passado do país.
Essa dualidade não é novidade. Ao longo de sua história, aniversários importantes serviram como palco para questionamentos profundos sobre os ideais fundadores da nação e suas contradições. Figuras como Frederick Douglass e Susan B. Anthony já utilizavam essas datas para denunciar as falhas e exclusões presentes na sociedade americana.
Conforme destaca Marc Stein, professor da Universidade Estadual de San Francisco e autor de “Bicentennial”, as comemorações tendem a ser “hiperpatrióticas, nacionalistas e extremamente elogiosas”. No entanto, ele ressalta que os aniversários também são momentos cruciais para a reflexão sobre as virtudes e os vícios da nação. Essas informações foram divulgadas em matérias recentes sobre o tema.
A tradição de questionamentos em datas históricas
A história americana é pontuada por momentos em que figuras proeminentes usaram as celebrações cívicas para expor as contradições do país. Em 1852, no aniversário de 76 anos, o abolicionista Frederick Douglass proferiu seu célebre discurso “O Que, Para o Escravo, É o 4 de Julho?”, criticando a hipocrisia de uma nação que celebrava a liberdade enquanto mantinha pessoas escravizadas.
Quatro anos antes do bicentenário, em 1876, a ativista pelos direitos das mulheres, Susan B. Anthony, foi excluída das celebrações oficiais. Em protesto, ela apresentou ao público seu discurso “Declaração de Independência das Mulheres”, evidenciando a luta pela igualdade de gênero em um país que ainda negava direitos básicos a metade de sua população.
O Bicententário de 1976 e a ascensão do revisionismo histórico
O bicentenário, em 1976, foi um marco para debates sociais intensos, segundo Marc Stein. Aquele período viu o crescimento da preocupação com as classes trabalhadoras, a população gay e outros grupos marginalizados, que buscavam seu lugar no “sonho americano”.
Dessa efervescência cultural surgiu o aclamado livro “Roots”, de Alex Haley, que narra a saga de uma família afro-americana. A obra, publicada no mesmo ano das celebrações, influenciou significativamente o debate racial nos Estados Unidos, promovendo uma nova perspectiva sobre a história do país sob a ótica de quem foi oprimido.
M.J. Rymsza-Pawlowska, professora da Universidade Americana, aponta que as conversas em torno das celebrações de 1976 foram fundamentais para moldar o campo da história pública nos EUA. “O governo federal financiou diversas instituições, como museus, levando a projetos de história oral e centros comunitários”, afirma.
O cenário atual: financiamento reduzido e foco em narrativas elogiosas
Em contraste com o passado, o cenário atual apresenta um quadro preocupante para a preservação e divulgação da história. Rymsza-Pawlowska observa que o governo tem retirado financiamento de instituições públicas dedicadas à história. “Esta administração [de Donald Trump] deu ordens para restaurar a ‘verdade’ da história americana, apagando dos nossos museus qualquer história que não seja elogiosa”, critica.
Essa política, segundo a professora, impede que as instituições deem visibilidade às narrativas das populações marginalizadas no país. Apesar disso, Rymsza-Pawlowska identifica um crescente apetite dos americanos por sua história, com um aumento na busca por reflexões sobre o lugar das populações indígenas e a apresentação de “histórias mais acessíveis e com mais nuances” nos museus.
A politização das celebrações e o futuro da memória nacional
As celebrações do 250º aniversário têm sido marcadas por uma forte partidarização, com a imagem do ex-presidente Donald Trump sendo atrelada ao evento. Stein recorda que, em 1976, o presidente Gerald Ford participou de eventos bipartidários, um gesto difícil de imaginar com Trump, que se referiu ao aniversário como um grande “comício”.
A abordagem atual, com foco em um discurso no National Mall, contrasta com o espírito de unidade e inclusão que as datas redondas historicamente deveriam inspirar. O futuro da memória nacional nos Estados Unidos dependerá da capacidade do país de equilibrar o orgulho patriótico com uma análise honesta e abrangente de seu passado, incluindo suas lutas e suas conquistas.





