Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors
Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors

Malvinas: Rivalidade Argentina x Inglaterra no Futebol é Mais que Jogo, Dizem Especialistas

A rivalidade Argentina x Inglaterra, inflamada pela questão das Malvinas, transcende o campo de futebol, segundo análises de especialistas.

Cânticos de jogadores argentinos em vestiários, menções à Guerra das Malvinas e reações inflamadas da imprensa britânica evidenciam como a disputa territorial no Atlântico Sul se entrelaça com a paixão pelo futebol.

Enquanto alguns veem a possibilidade de uma “redenção” para a Inglaterra em campo, outros argumentam que a questão das Malvinas é um elemento intrínseco e perene na identidade argentina, moldando a relação entre as duas nações.

Esta matéria explora as diferentes perspectivas sobre essa complexa rivalidade, combinando análises geopolíticas, históricas e culturais, conforme informações divulgadas por veículos como o Daily Mail, The Sun e entrevistas com especialistas.

A Chama das Malvinas no Futebol Argentino

A menção às ilhas do Atlântico Sul, palco de um conflito em 1982 vencido pela Inglaterra, não é novidade no contexto do futebol argentino. Durante a Copa do Mundo do Qatar, celebrada 40 anos após a guerra, um hit da torcida argentina ecoava: “Na Argentina nasci, terra de Diego e Lionel, dos meninos das Malvinas, que jamais esquecerei”.

Mais recentemente, após uma vitória sofrida nas oitavas de final, jogadores argentinos foram filmados cantando “La cuarta estrella”, com versos como “Por Malvinas, por Diego, por la última de Leo, Argentina quiero verte bicampeón”. O vídeo, divulgado em redes sociais, foi explorado por tabloides britânicos, como o Daily Mail, que estamparam manchetes como “FOR THE FALKLANDS”, ironizando a menção às ilhas.

O jornal The Sun, por sua vez, adicionou lenha na fogueira ao entrevistar veteranos ingleses da guerra. Sob o título “Os argentinos ‘infantis’ de Messi estão insultando os mortos, dizem veteranos das Falklands”, a matéria escalou a tensão às vésperas de uma semifinal entre as duas seleções.

Visões Contrastantes sobre a Rivalidade

O jornalista argentino Andrés Burgo, autor do livro “El Partido”, que reconstrói o jogo da Copa de 1986 onde Maradona brilhou contra a Inglaterra, explica a permanência do tema. “Nós, argentinos, continuamos reivindicando nossa soberania sobre as Malvinas, ocupadas ilegitimamente pelos ingleses. As músicas dos jogadores falam das Malvinas e as bandeiras das torcidas têm desenhos das Malvinas, é algo que acontece em todos os jogos do futebol argentino”, afirma Burgo.

Para Burgo, o futebol faz uma “reivindicação permanente da soberania sobre as ilhas” e os jogadores “mantêm essa chama acesa”. Ele sugere que a importância do tema no futebol argentino é ainda maior quando se considera o contexto político atual, citando o presidente Javier Milei, que expressou admiração por Margaret Thatcher.

Klaus Dodds, professor de geopolítica na Middlesex University de Londres e autor de “Pink Ice: Britain and the South Atlantic Empire”, oferece uma perspectiva distinta. “A questão da soberania permanece sem solução para a Argentina, mas está resolvida para a Grã-Bretanha e para a comunidade das Falklands”, declara Dodds, referindo-se ao referendo de 2013 que reforçou o desejo de permanência sob domínio britânico.

Dodds aponta que os jogos da Copa se tornam um canal para essa rivalidade contínua, ajudando a Argentina a “reacender uma questão que permanece atual e relevante”. Ele também menciona que a relação de Milei com Donald Trump e a indiferença deste último ao ex-primeiro-ministro britânico Keir Starmer poderiam ter “reacendido a esperança em alguns argentinos” sobre o tema.

Raízes Históricas da Tensão Futebolística

A rivalidade futebolística entre Argentina e Inglaterra, segundo Dodds, é anterior à Guerra das Malvinas, remontando à Copa de 1966. Naquele jogo, a vitória inglesa por 1 a 0 nas quartas de final foi marcada por alegações argentinas de arbitragem tendenciosa e um incidente onde o técnico inglês Alf Ramsey impediu seus jogadores de cumprimentarem os adversários, chamando-os de “animais”.

Esse episódio coincidiu com tensões renovadas sobre as Malvinas e, anos depois, com um surto de febre aftosa no Reino Unido atribuído à carne bovina argentina. O jogo de 1986, quatro anos após a guerra, “reacendeu tudo isso”, segundo o acadêmico britânico.

Com base nesse histórico, Dodds opina que uma vitória inglesa na semifinal “poderia ser vista, em certo sentido, como uma redenção”. Ele ressalta que, embora jogadores e treinadores frequentemente minimizem a importância, “o futebol tem uma importância desproporcional na diplomacia e na política”.

O Futebol como Reflexo e Não Motor da Diplomacia

O sociólogo argentino Pablo Alabarces, professor da Universidade de Buenos Aires, minimiza a influência da retórica nacionalista no desempenho das equipes e na diplomacia. “A questão da soberania das Malvinas continua sem solução simplesmente porque existe uma ocupação colonial”, afirma Alabarces, mas ressalta que “o futebol não interfere absolutamente em nada na questão diplomática”.

Ele argumenta que ganhar ou perder um jogo “não devolverá as ilhas, nem perdê-lo significará o fim da reivindicação”. Para Alabarces, a questão das Malvinas está presente no currículo escolar argentino, mas isso não se traduz em uma motivação extra para as equipes, especialmente para a seleção atual, que ele descreve como “profundamente despolitizada”.

Alabarces também diverge sobre a origem da rivalidade, localizando-a imaginariamente entre o final do século 19 e o início do século 20, quando as equipes argentinas buscavam superar a Inglaterra, inventora do futebol. Ele considera a partida desta quarta-feira, a sexta entre as seleções em Copas, como um evento esportivo, onde a “metonímia de guerra é apenas uma figura de linguagem”.

Apesar das diferentes interpretações, a rivalidade entre Argentina e Inglaterra no futebol, profundamente marcada pela questão das Malvinas, demonstra a complexa intersecção entre esporte, política e identidade nacional, garantindo que a disputa permaneça viva em ambas as esferas.

Veja também

Newsletter

Assine nossa newsletter e fique por dentro das novidades!

Mais Vistos