Morre Luiz Carlos Barreto, gigante do cinema brasileiro, aos 98 anos, após vida de múltiplos talentos
O Brasil se despede de um de seus maiores expoentes culturais. Luiz Carlos Barreto, carinhosamente conhecido como “Barretão”, faleceu na madrugada desta quarta-feira (22), aos 98 anos, no Rio de Janeiro. Sua partida deixa um vazio imensurável no cinema nacional, mas seu legado, construído com paixão e genialidade, ecoará por gerações.
Barretão foi muito mais do que um produtor cinematográfico de renome. Sua trajetória, iniciada no Ceará, o levou por caminhos diversos, como o jornalismo investigativo, a fotografia de estrelas de Hollywood e até mesmo o futebol nas categorias de base do Flamengo. Uma vida rica em experiências que moldaram sua visão única e sua contribuição para a arte.
Sua atuação no Cinema Novo, movimento que revolucionou o cinema brasileiro com realismo e crítica social, foi fundamental. Ao lado de sua esposa, Lucy Barreto, com quem compartilhou 71 anos de vida e parceria profissional, Luiz Carlos Barreto fundou a LC Barreto, uma das produtoras mais importantes da história do país. O cinema brasileiro perde um mestre, mas sua obra permanece viva.
De fotógrafo de celebridades a pioneiro do Cinema Novo
Antes de se consagrar como produtor, Luiz Carlos Barreto trilhou um caminho notável como fotógrafo. Em sua passagem pela revista O Cruzeiro, teve a oportunidade de clicar personalidades que marcaram época, como Marilyn Monroe, Frank Sinatra e o líder cubano Fidel Castro. Essa experiência internacional ampliou seus horizontes e sua percepção artística.
O encontro com Glauber Rocha na Bahia, durante as filmagens de “Barravento”, foi um divisor de águas. Glauber o convidou para fotografar “Vidas Secas”, filme que se tornaria um marco do Cinema Novo. Barretão compreendeu a proposta de retratar um Nordeste real, intenso, onde a luz não era apenas cenário, mas um elemento vivo e desafiador. Essa visão se refletiu em seu trabalho em “Vidas Secas” (1963) e “Terra em Transe” (1967).
O produtor que levou o Brasil ao Oscar e encantou multidões
A LC Barreto, fundada por Luiz Carlos e Lucy Barreto, é responsável pela produção de mais de 150 filmes, muitos deles sucessos de público e crítica. O casal, com seus filhos cineastas Bruno, Fábio e Paula Barreto, consolidou uma linhagem artística de imenso valor para o cinema nacional.
Entre os grandes êxitos produzidos pela LC Barreto, destacam-se “Dona Flor e Seus Dois Maridos”, que atraiu mais de 10 milhões de espectadores e foi exibido em 80 países, “Bye Bye Brasil” e “O Beijo no Asfalto”. A produtora ainda levou o Brasil a duas indicações ao Oscar com “O Que É Isso, Companheiro?” e “O Quatrilho”, consolidando a força do cinema brasileiro no cenário internacional.
A paixão pelo futebol e a versatilidade de “Barretão”
Luiz Carlos Barreto não era apenas um homem do cinema, mas também um apaixonado por futebol. Chegou a jogar nas categorias de base do Flamengo e integrou o elenco principal na década de 1940. Sua habilidade era tamanha que chegou a ser convocado para a seleção que disputaria as Olimpíadas de Londres em 1948, uma oportunidade que, por questões financeiras da época, acabou não se concretizando.
Apesar de sua paixão pelo esporte, dirigiu apenas um filme sobre futebol, “Isto É Pelé”. No cinema, também atuou como roteirista, assinando o sucesso “Assalto ao Trem Pagador”. No entanto, ele sempre ressaltou que sua maior vocação residia na produção e na fotografia, áreas onde deixou sua marca indelével.
Um legado de liberdade e resiliência
Luiz Carlos Barreto enfrentava problemas de saúde desde uma queda sofrida em 2024, durante uma visita ao Ceará. Internado no Hospital Copa Star, no Rio de Janeiro, tratava uma infecção pulmonar. Sua partida, aos 98 anos, encerra um ciclo de dedicação ao cinema e ao Brasil.
“Os filmes foram sempre aqueles filmes que a gente quis fazer, da melhor maneira com quem a gente quis fazer, com a liberdade que a gente quis, mesmo na época da ditadura, conseguimos manter viva nossa produção. O cinema brasileiro, apesar das quedas e das crises, sempre ressurgiu cada vez melhor e mais forte”, disse Luiz Carlos em uma declaração que resume seu espírito resiliente e seu amor pela sétima arte. O velório ocorrerá nesta quinta-feira (23), às 11h, no Palácio da Cidade, em Botafogo, seguido de cremação.





