Israelenses detalham ‘desastre colossal’ na Venezuela e encontram corpos de família abraçada um mês após terremotos
O major Roni Kaplan, porta-voz das Forças Armadas de Israel, descreveu a situação em La Guaira, região mais afetada pelos terremotos na Venezuela, como um “desastre colossal”. Kaplan, que integrou a equipe de 64 socorristas israelenses enviada ao país, comparou a tragédia a “uma das maiores do século 21”.
A missão, que durou 24 dias, marcou a mais longa do tipo na história do Exército israelense. Apesar do rompimento das relações diplomáticas com a Venezuela desde 2009, Israel participou de um esforço internacional de solidariedade, ao lado de outros países como o Brasil. A equipe focou na transição das operações de resgate para a fase de reconstrução e remoção de escombros.
“Nunca vi nada parecido”, afirmou Kaplan em entrevista à Folha, destacando o trabalho árduo e a sensibilidade humana necessária para lidar com as consequências dos abalos. A delegação israelense atuou em conjunto com engenheiros e autoridades venezuelanas, oferecendo treinamento em técnicas de demolição segura, reforço estrutural e reconstrução. Conforme informação divulgada pelo major, a equipe foi a última delegação internacional a deixar o país.
Família encontrada abraçada em meio a escombros
Um dos momentos mais marcantes da missão ocorreu na quarta-feira (22), quando a equipe de Kaplan retirou os corpos de uma família em Caraballeda, estado de La Guaira. A operação exigiu uma demolição controlada do edifício para permitir o acesso às vítimas.
“Quando encontramos a família, o pai, de 41 anos, estava abraçado à mãe, também de 41 anos. Entre eles estava o filho, um menino de nove anos. Os dois estavam abraçando a criança, como se estivessem protegendo o filho. A avó, de 67 anos, estava a poucos metros dali”, relatou o major.
Kaplan ressaltou a importância de preservar a dignidade do sepultamento e honrar a memória dos falecidos, um valor fundamental para o povo de Israel e para qualquer sociedade. A experiência da equipe em desastres naturais e acidentes industriais, incluindo a atuação em Brumadinho, Brasil, foi crucial, mas a sensibilidade humana foi apontada como o fator mais importante.
Desafios emocionais e transferência de tecnologia
Lidar com a carga emocional do trabalho foi um desafio significativo para os socorristas. Kaplan mencionou que, diariamente, a equipe realizava conversas para compartilhar as experiências vividas, uma forma de processar o trauma. “É difícil”, admitiu.
A missão israelense não se limitou ao resgate e à remoção de escombros. A equipe entregou às autoridades venezuelanas um sistema inovador desenvolvido em Israel. Este software utiliza big data para classificar edifícios conforme o grau de risco, auxiliando na tomada de decisões sobre quais estruturas podem ser imediatamente ocupadas, quais necessitam de novas inspeções e quais exigem reforço estrutural ou demolição.
Tecnologia para reconstrução em cenário de recursos limitados
O sistema foi projetado para apoiar as autoridades venezuelanas em um cenário de recursos limitados, permitindo a definição de prioridades para o uso de equipes e equipamentos. Kaplan explicou que a ferramenta visa otimizar o processo de reconstrução, que ele estima levará anos para ser concluído em uma região tão devastada.
A destruição em La Guaira superou as experiências anteriores da delegação israelense em missões internacionais. A avaliação da segurança estrutural das edificações, o estabelecimento de prioridades para a reconstrução e a garantia do retorno seguro da população aos prédios considerados habitáveis foram parte essencial do trabalho. O major Kaplan enfatizou que o sucesso da missão se mede pela capacidade das autoridades locais de dar continuidade à reconstrução de forma autônoma após a saída das delegações internacionais.





