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Kim Jong-un: A ‘Transformação Milagrosa’ da Coreia do Norte que Deixou o Regime Mais Rico do que Nunca, Apesar da Crise Humanitária

Kim Jong-un consolida poder e riqueza em meio a recuperação econômica na Coreia do Norte, mas a população ainda sofre

A Coreia do Norte, sob o comando de Kim Jong-un, tem apresentado sinais de uma notável recuperação econômica nos últimos anos. Após décadas de isolamento, sanções internacionais e crises de subsistência, o regime afirma ter alcançado uma “transformação milagrosa”. No entanto, essa melhora não se reflete uniformemente na vida de todos os cidadãos, com a capital Pyongyang demonstrando mais sinais de prosperidade do que o restante do país.

Especialistas apontam que as exportações de armas para a Rússia, o comércio com a China e um controle mais rigoroso sobre os mercados informais têm contribuído para o enriquecimento do regime. Apesar disso, as condições de vida para a maioria da população continuam desafiadoras, levantando questões sobre a sustentabilidade e a distribuição desses ganhos.

As informações sobre a situação interna da Coreia do Norte são escassas e controladas pelo governo. A análise se baseia em relatos de desertores, inteligência estrangeira e observações de visitantes autorizados. Conforme dados do Banco Central da Coreia do Sul, o Produto Interno Bruto (PIB) norte-coreano cresceu 3,7% em 2024, a maior expansão em oito anos, indicando um momento economicamente favorável para o regime de Kim Jong-un.

Sinais de Recuperação em Pyongyang e no Setor Militar

Na capital, Pyongyang, observam-se mudanças como o aumento da iluminação pública e o retorno do funcionamento de elevadores em edifícios altos, algo impensável há poucos anos devido à falta de eletricidade. Imagens de satélite confirmam o aumento contínuo da iluminação na cidade. Visitantes relatam a proliferação de telefones celulares, carros elétricos importados e o surgimento de aplicativos de entrega e transporte, indicando um aumento no consumo e na riqueza, pelo menos para uma parcela da população.

Projetos de infraestrutura, como grandes complexos turísticos e a iniciativa “20×10” para construir fábricas em todo o país, também foram anunciados. Paralelamente, a Coreia do Norte consolidou sua posição como potência nuclear, desenvolvendo uma nova geração de mísseis e planos para submarinos nucleares, fortalecendo sua capacidade de defesa diante de ameaças externas percebidas.

O Papel Crucial da Rússia e da China na Economia Norte-coreana

A aproximação estratégica com a Rússia, especialmente após a invasão da Ucrânia, foi um fator chave para a recuperação econômica da Coreia do Norte. Relatórios de inteligência ocidental indicam o envio de armamentos e munições para a Rússia em troca de apoio. A assinatura de uma “Parceria estratégica abrangente” em junho de 2024, incluindo uma cláusula de defesa mútua, reforça essa aliança.

Essa cooperação militar impulsionou setores como mineração, indústria pesada e fabricação de máquinas, reativando setores produtivos e o setor formal da economia. No entanto, analistas como Jongkyu Lee, do Instituto para o Desenvolvimento da Coreia, apontam que a capacidade da Rússia de sustentar um desenvolvimento econômico amplo é limitada em comparação com a China.

A China, por sua vez, tem demonstrado um apoio renovado, com o líder Xi Jinping sinalizando o desejo de elevar a relação bilateral a “outro nível” e reforçar a cooperação econômica. Essa mudança na postura chinesa, que antes apoiava sanções mais rígidas, é vista como uma forma de contrabalançar a aproximação de Pyongyang com Moscou e uma admissão de que as sanções não foram totalmente eficazes.

A Dura Realidade para a Maioria dos Norte-coreanos

Apesar dos sinais de prosperidade na elite e na capital, a maioria da população norte-coreana continua a enfrentar condições de vida precárias. O país tem um histórico de crises humanitárias, como a “Grande Fome” dos anos 90, que resultou na morte de centenas de milhares de pessoas. O regime é acusado de violações sistemáticas dos direitos humanos, com punições severas para qualquer forma de dissidência.

Durante a pandemia de Covid-19, o controle estatal foi ainda mais endurecido, afetando também o mercado informal de importação de produtos chineses, que era uma fonte vital de sustento para muitos. A estratégia de maior controle estatal sobre as atividades comerciais, segundo especialistas, não se traduziu em uma melhora significativa das condições de vida para o cidadão comum.

O regime também recorre a métodos não convencionais para financiar seus programas, como a apropriação de remessas de trabalhadores no exterior e ataques cibernéticos para roubar criptomoedas. Em 2025, o regime teria acumulado cerca de US$ 2 bilhões em criptoativos roubados. Contudo, essas estratégias não aliviaram a crise humanitária no país.

Perspectivas Incertas para o Futuro Econômico

A “transformação milagrosa” de Kim Jong-un enfrenta desafios significativos. A desigualdade entre a capital e o resto do país é acentuada, e a fragilidade do atual crescimento econômico, impulsionado em grande parte pela demanda militar, levanta dúvidas sobre sua sustentabilidade a longo prazo. A falta de financiamento adequado para projetos de desenvolvimento e o impacto dos gastos militares são preocupações constantes.

Especialistas como Stephen Haggard, da Universidade da Califórnia, e Jongkyu Lee expressam ceticismo quanto à sustentabilidade do modelo de crescimento atual, que parece mais voltado para a guerra do que para um desenvolvimento econômico equilibrado. A dúvida principal permanece: os benefícios desse crescimento chegarão, de fato, ao cidadão comum fora de Pyongyang?

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