Entenda a mola gestacional, uma condição rara que pode evoluir para câncer de placenta e assusta mulheres grávidas.
A descoberta de uma gravidez é um momento de imensa alegria, mas, para algumas mulheres, pode vir acompanhada de diagnósticos inesperados e desafiadores. A mola gestacional, também conhecida como doença trofoblástica gestacional (DTG), é uma dessas condições que, embora benigna em sua origem, exige atenção e acompanhamento rigoroso devido ao risco de evoluir para um câncer de placenta.
Essa condição surge de um erro na fertilização, resultando na formação de um tecido anormal na placenta. Em alguns casos, esse tecido pode se tornar maligno, necessitando de tratamento específico. A história de Daiana Nascimento, que passou por essa experiência, ressalta a importância de conhecer os sinais e a necessidade de centros de referência para o tratamento.
Conforme informações divulgadas pelo Ambulatório de Doença Trofoblástica Gestacional da Maternidade Escola da UFRJ, um dos centros mais importantes do mundo em pesquisa sobre o tema, a mola gestacional afeta uma parcela significativa de mulheres grávidas, e o acompanhamento médico adequado pode salvar vidas.
O que é a Mola Gestacional?
A mola gestacional é um tipo de tumor benigno que se origina na placenta durante a gravidez. Ela surge devido a um erro na fertilização. Em casos de mola incompleta, um espermatozoide com DNA duplicado ou dois espermatozoides fecundam um óvulo normal. Isso resulta em uma placenta imperfeita e um embrião com anomalias genéticas incompatíveis com a vida. Já na mola completa, um óvulo sem DNA é fecundado por um espermatozoide, formando apenas uma placenta anormal, sem a presença de embrião.
Em ambas as situações, a gestação precisa ser interrompida e a mola removida. A não remoção pode causar sangramento uterino, além de alterações na tireoide e na pressão sanguínea. O professor de obstetrícia da UFRJ, Antônio Braga, explica que o risco mais grave da DTG é a evolução para o câncer de placenta, que ocorre quando as células da mola se instalam no útero. Isso acontece em menos de 5% dos casos de mola parcial, mas em até 20% das gestações com mola completa.
Diagnóstico e Estatísticas da Mola Gestacional
A maioria das mulheres descobre a mola gestacional durante um ultrassom de rotina, após confirmar a gravidez por exames de sangue ou urina. A terapeuta ocupacional Daiana Nascimento relata que viveu o dia mais feliz e o mais triste de sua vida em menos de três dias, ao descobrir a gravidez e, logo em seguida, a mola gestacional. O professor Antônio Braga destaca que a incidência no Brasil é de 1 a cada 200 a 400 gestações, enquanto nos Estados Unidos é de 1 a cada mil e na Inglaterra, de 1 a cada duas mil. As razões para essa diferença ainda são objeto de investigação, com suspeitas envolvendo fatores genéticos, imunológicos e alimentares.
O ambulatório da Maternidade Escola da UFRJ atende cerca de 80 pacientes com mola por semana pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Muitos desses atendimentos são de mulheres que poderiam ter plano de saúde, mas preferem o tratamento na unidade pública devido à sua especialização. Braga enfatiza a importância de serem atendidas em centros de referência, pois, fora deles, as chances de mortalidade podem ser de 10 a 20 vezes maiores.
Acompanhamento Pós-Retirada da Mola
Após a retirada da mola por aspiração uterina, o acompanhamento é crucial. Um exame histopatológico determina o tipo de mola (parcial ou completa), e a paciente passa por consultas periódicas com medição do HCG (hormônio produzido na gestação). O professor Braga explica que o diagnóstico de câncer de placenta é único, pois não se baseia em biópsia, mas sim no monitoramento do HCG. Se os níveis do hormônio não caírem após a interrupção da gravidez, é um sinal de que as células da mola migraram para o útero, indicando o desenvolvimento do câncer.
O tratamento para o tumor maligno é feito com quimioterapia. Felizmente, a maioria das mulheres tratadas adequadamente se cura e pode engravidar novamente. Daiana Nascimento, após terminar a quimioterapia e com o HCG normalizado, está curada do câncer, mas aguarda liberação médica para tentar engravidar novamente, pois um teste positivo pode mascarar o retorno da doença.
Histerectomia e Suporte Emocional
Em casos específicos, como em mulheres mais velhas que já tiveram filhos ou não pretendem ter mais, pode ser recomendada a histerectomia, a retirada cirúrgica do útero. Mônica Rosa do Amaral Pelizari, aos 45 anos, passou por essa situação após um abortamento espontâneo e o desenvolvimento de câncer de placenta. Ela relata que, apesar do medo inicial com o diagnóstico de câncer, sentiu-se amparada pela família e pelos profissionais de saúde.
O acolhimento é um pilar fundamental no tratamento. A médica do ambulatório, Gabriela Paiva, ressalta que as pacientes chegam fragilizadas e é essencial reforçar que a doença não é culpa delas e que não estão sozinhas. O impacto da perda gestacional e do diagnóstico de câncer afeta toda a família, e o apoio psicológico e social, incluindo musicoterapia, é oferecido para auxiliar nesse processo. O marido de Daiana, Lucas Felipe, também enfatiza a importância do suporte para os parceiros e familiares, que precisam lidar com suas próprias emoções para apoiar a paciente.
A logística e o suporte financeiro também são desafios. Daiana, que mora a 141 km da capital, utilizou transporte médico e descobriu a gratuidade em ônibus intermunicipais para se locomover para as consultas e sessões de quimioterapia. O acompanhamento dura, no mínimo, seis meses, e o apoio mútuo entre as pacientes no ambulatório se torna um diferencial, mostrando que outras mulheres também enfrentam situações semelhantes.




