Alexandra Gurgel, antes ícone do “body positive”, explica sua saída do movimento e planeja emagrecer.
Alexandra Gurgel, jornalista e influenciadora de 37 anos, foi uma das vozes mais proeminentes do movimento “body positive” no Brasil. Ela compartilhava sua jornada com um corpo gordo, fundou o “Corpo Livre” e se tornou referência na luta contra a gordofobia, lançando livros e estampando revistas.
Contudo, há dois anos, Gurgel decidiu se afastar das pautas do “body positive”, mudando seu foco para discussões sobre relacionamentos em suas redes sociais. A militância, segundo ela, tornou-se exaustiva e a levou a uma profunda reflexão sobre suas convicções e seu papel.
Agora, Alexandra Gurgel expressa o desejo de emagrecer, sentindo-se segura para iniciar esse processo, em parte, devido aos avanços em medicamentos para perda de peso. Em entrevista à DW, ela detalhou suas razões e a evolução de sua perspectiva.
O Início da Jornada e a Perda de Rumo na Militância
“Tudo aconteceu muito rápido na minha vida”, relata Alexandra Gurgel sobre seu início no “body positive”. Ela começou seu canal no YouTube buscando pessoas com experiências semelhantes, sem conhecer os termos “gordofobia” ou “body positive”. “Conheci junto com as pessoas”, afirma, lembrando que há 10 anos era “só uma menina”.
A influenciadora acredita que, “como em todas as militâncias, no fim das contas, as coisas se perderam”. Durante a pandemia, sua popularidade cresceu exponencialmente no Instagram, onde se tornou uma figura de denúncia e acolhimento, ao mesmo tempo em que ganhava fama. “E junto disso veio uma estratégia em cima do meu nome: vamos ser famosa”, descreve.
Apesar de ter desfrutado de momentos como capas de revistas e visitas a redações de moda, Alexandra Gurgel sentiu a pressão de ser a “militante perfeita, que não podia errar”. Ela cita o exemplo de ser fumante, algo que escondia por não considerar “body positive”, demonstrando a dificuldade de conciliar sua vida pessoal com a imagem pública exigida.
O Cansaço da Representatividade e a Busca por Liberdade Pessoal
Ser uma referência no “body positive” trouxe desafios e tentações. “E pra aceitar isso, tinha dinheiro. E você não se envaidece?”, questiona, referindo-se ao envaidecimento com marcas e convites para eventos luxuosos. “De repente, falaram: ‘ah, mas seria legal você estar em Paris’ ou ‘acho que é legal você usar Dior’. E eu: nossa, eu posso comprar isso?”, relembra.
A influenciadora decidiu vender cerca de 90% de seus pertences e parou de frequentar o circuito de eventos. “Eu ia no Baile da Vogue, porque eu considerava que a minha presença seria uma representatividade. E, de fato, foi. Só que eu estava cansada de representar as pessoas”, confessa.
Alexandra Gurgel se deu o “direito de errar”, algo que, segundo ela, “militante não tem esse direito”. Essa decisão a libertou de um fardo, embora tenha se sentido culpada inicialmente por abandonar o ativismo. “É cansativo, porque eu, de fato, me preocupava. Eu achava que eu estava fazendo alguma diferença e eu sinto que eu fiz”, pondera.
Revisão de Conceitos e a Nova Perspectiva sobre Obesidade
Um dos pontos de arrependimento de Gurgel é sua antiga afirmação de que “obesidade não era doença”. Ela explica que seu foco era não ser vista como doente, mas sim como “gorda”, e que hoje “poderia ter falado de outra maneira”. A palavra “obesidade”, que antes considerava “gordofóbica”, agora tem outro significado para ela.
“Eu era uma garota revoltada e tendo atenção pela primeira vez”, justifica seu tom passado. Ao deixar a militância, Gurgel parou de se importar tanto com a opinião alheia. “Quando você é militante e erra, você vira o diabo na Terra, na mesma altura em que era a fada sensata. E isso é muito ruim”, desabafa.
Sobre as críticas de que influenciadores ganharam dinheiro com o movimento e o abandonaram, Gurgel é direta: “Sim, a gente ganhou muito dinheiro. Era isso que a gente fazia: as marcas vinham, queriam comunicar sobre o tema, então dava esse match.” Ela ressalta que não ficou milionária e que o mercado de militância, em geral, foi afetado pela diminuição de verbas para diversidade em empresas.
Emagrecimento Consciente e o Futuro do “Body Positive”
Alexandra Gurgel lida com as críticas ao emagrecimento de ex-vozes do “body positive” afirmando que “as pessoas nunca estão satisfeitas”. Ela observa que, antes, as críticas eram por serem “gordas demais” e agora, ao emagrecerem, são chamadas de “pelancudas” ou acusadas de se entregarem ao padrão.
Ela acredita que o “body positive” não acabou, mas sim se transformou. “Todo mundo queria só ter uma chance de viver, de aparecer, de ser livre. Por isso que era corpo livre, deixa a gente ser livre”, defende. Atualmente, Gurgel está em um processo de “emagrecer com consciência” com acompanhamento médico, buscando uma “vida melhor” e a possibilidade de usar “roupas melhores”.
“Quero emagrecer. Isso sempre foi uma questão, sempre quis emagrecer durante a minha vida toda”, revela. Ela vê nas novas tecnologias e medicamentos uma alternativa que não existia antes, que pode ajudá-la em sua “questão com o meu corpo e na minha genética”.
Para Alexandra Gurgel, a aceitação promovida pelo “body positive” não significava uma vida sem problemas, mas sim o direito de ser aceito. Ela cita casos onde a obesidade impede o acesso a serviços básicos, como passar em catracas ou realizar exames e cirurgias. “São alternativas que tornam a nossa vida mais viável”, conclui.
Atualmente, Gurgel enxerga o “body positive” como uma realidade menos revoltada e mais focada na consideração da diversidade. Ela percebe que a gordofobia persiste, mas há uma maior compreensão da existência de “outro lugar”.
A mudança de conteúdo em suas redes, focando em histórias de relacionamentos, gerou críticas, mas também um crescimento expressivo de seguidores. “Eu paguei o preço por isso. Eu estaria muito melhor hoje se ainda estivesse falando da mesma pauta”, admite, mas reafirma: “Eu não desfaço, não cuspo no prato que eu comi, porque eu amo a minha história.”




