Almirante Caudle e a Sombra da Politização no Pentágono sob Hegseth
A escolha do Almirante Daryl Caudle para o cargo de Chefe de Operações Navais nos Estados Unidos tem gerado debates acalorados sobre a integridade e a imparcialidade dos processos de promoção militar no Pentágono. A ascensão de Caudle, que ofereceu auxílio a Pete Hegseth em sua audiência de confirmação antes mesmo de Hegseth assumir o cargo de Secretário de Defesa, é vista por críticos como um exemplo de politização.
Oficiais de defesa, que pediram anonimato, relataram que a abordagem de Caudle a Hegseth violou a ética militar, que exige que oficiais de alta patente evitem qualquer indício de viés partidário ou atividade política. Embora a oferta inicial não tenha resultado em nada concreto na época, o episódio levanta sérias questões sobre a influência de fatores políticos nas decisões de carreira militar.
A situação se adensou com a subsequente demissão da primeira mulher a liderar a Marinha, a Almirante Lisa Franchetti, logo após Hegseth assumir. Poucos dias depois, um oficial sênior da equipe de Caudle entrou em contato com a equipe de Hegseth, novamente por um canal não protocolar, propondo Caudle para o posto mais alto da Marinha. Conforme relatos, o oficial descreveu Caudle como alguém perfeitamente alinhado com a visão de Hegseth para reformular as Forças Armadas, um “combatente que queria remover barreiras progressistas”. Essa narrativa contrasta com a lista de candidatos recomendados pela própria Marinha, que não incluía Caudle.
O Caminho Incomum de Caudle para o Comando Naval
O processo que levou o Almirante Caudle a assumir como o 34º Chefe de Operações Navais é considerado por muitos um estudo de caso sobre como as promoções militares podem se desviar da tradição sob a gestão de Hegseth. A nomeação ocorreu após uma investigação do inspetor-geral sobre comentários feitos por Caudle a marinheiros a respeito do programa de Prevenção e Resposta a Agressões Sexuais do Pentágono, que foram interpretados por alguns como culpabilização das vítimas.
Para auxiliar na resolução desta investigação, Caudle contratou Timothy Parlatore, um advogado conhecido que também representou Hegseth e o ex-presidente Donald Trump. Parlatore havia sido designado por Hegseth como seu “conselheiro especial” no Pentágono e, antes de representar Caudle, já havia recomendado o almirante para o cargo de liderança na Marinha, segundo autoridades.
Hegseth e a Busca por “Combatentes” no Pentágono
Desde que assumiu o cargo há cerca de 18 meses, Hegseth demitiu ou afastou mais de vinte oficiais de alta patente, incluindo a Almirante Lisa Franchetti. Ele também removeu cerca de 40 oficiais de listas de promoção que haviam sido selecionados por comissões de pares. Hegseth defende suas ações como necessárias para eliminar o que ele chama de “ideólogos radicais” nas Forças Armadas.
Em seu livro “The War on Warriors”, Hegseth escreveu que “a esquerda capturou as Forças Armadas rapidamente e devemos reconquistá-las em um ritmo mais acelerado”. Essa visão molda suas decisões, e a promoção de Caudle é vista como um reflexo dessa abordagem, onde alinhamento ideológico parece ter peso significativo.
Investigação e Controvérsias na Promoção de Caudle
Antes que a indicação de Caudle pudesse ser oficializada, a investigação do inspetor-geral sobre seus comentários sobre o programa de prevenção de agressões sexuais precisava ser concluída. Marinheiros relataram que Caudle usou analogias como a de ser atacado por um urso se andasse nu pela floresta coberto de mel, ou ser roubado se usasse joias caras em um bairro específico, para ilustrar sua visão sobre a necessidade de as tropas evitarem comportamentos de risco. Pelo menos um marinheiro interpretou essas declarações como uma forma de culpar as vítimas.
O inspetor-geral considerou as acusações infundadas, permitindo que Caudle assumisse o cargo. A defesa de Caudle, através de seu porta-voz, Capitão Dave Hecht, afirmou que qualquer discussão com Hegseth seria estritamente sobre “questões factuais e operacionais”, em conformidade com a diretiva do Pentágono que aconselha as tropas a evitar “atividade política partidária”.
A Lista de Hegseth vs. a Lista da Marinha
Altos funcionários da Marinha, liderados pelo secretário interino da Força, elaboraram uma lista de três oficiais considerados mais qualificados para substituir Franchetti, mas Caudle não estava incluída. A Marinha considerava Caudle mais apto para liderar o Comando Estratégico dos EUA, responsável pelo arsenal nuclear do país. No entanto, em uma reunião, Hegseth questionou a ausência de Caudle na lista, instruindo sua equipe a discutir o assunto com Timothy Parlatore, que, por sua vez, havia recomendado Caudle a Hegseth.
Sean Parnell, porta-voz-chefe do Pentágono, declarou que Hegseth “entrevistou muitos candidatos para o cargo e, em última análise, considerou o Almirante Caudle a escolha certa”, enfatizando que “cada decisão é baseada estritamente no mérito”. A controvérsia, no entanto, lança uma sombra sobre a percepção de imparcialidade no processo de promoção militar sob a atual liderança do Pentágono.





