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Agência dos EUA para Crianças Migrantes Denuncia Famílias ao ICE, Levando a Milhares de Prisões e Deportações

Agência de Proteção a Crianças Migrantes nos EUA Denunciou Famílias ao ICE, Resultando em Prisões em Massa

A agência federal dos Estados Unidos responsável por abrigar crianças migrantes desacompanhadas, o Escritório de Reassentamento de Refugiados (ORR), implementou uma política controversa durante o segundo mandato do presidente Donald Trump que resultou no compartilhamento massivo de informações com o Serviço de Imigração e Controle de Alfândega (ICE).

Essas denúncias, totalizando mais de 460 mil “pistas”, expuseram milhares de famílias migrantes, incluindo pais e seus filhos abrigados pelo ORR, a detenções e deportações. A Reuters obteve dados internos do governo que revelam a extensão dessa cooperação, antes mantida em sigilo, e que impactou diretamente a vida de famílias buscando segurança e reunificação.

A mudança de política reverteu salvaguardas estabelecidas para proteger crianças migrantes, transformando um programa de bem-estar infantil em uma ferramenta de fiscalização imigratória. O caso de Aurora e sua filha ilustra as consequências devastadoras dessa abordagem, onde um reencontro feliz se transformou em detenção e medo de deportação, conforme revelado por reportagem exclusiva da Reuters.

O Fim da Proteção: Como o ORR Passou a Colaborar com o ICE

Criado em 1980 para reassentar refugiados, o ORR passou a abrigar crianças migrantes desacompanhadas a partir dos anos 2000. Historicamente, o cuidado dessas crianças era mantido separado da fiscalização imigratória. Uma lei de 2008 visava garantir que fossem colocadas em ambientes menos restritivos e liberadas rapidamente, permitindo que famílias se reunissem sem o temor de serem alvos do ICE, mesmo em situação migratória irregular.

No entanto, a administração Trump alterou drasticamente essa prática. Desde janeiro de 2017, o ORR passou a compartilhar informações detalhadas sobre crianças desacompanhadas, seus responsáveis e outros membros do domicílio com o ICE. Esses dados, que incluem nomes e impressões digitais, tornaram essas famílias vulneráveis à detenção e deportação, segundo dados obtidos pela Reuters.

Jen Smyers, ex-diretora-adjunta do ORR durante o governo Biden, criticou a reversão das salvaguardas, afirmando que a agência foi transformada “em arma para realizar mais deportações”. Em resposta, o ORR declarou que “não desempenha nenhum papel na apreensão de crianças”, direcionando perguntas sobre fiscalização ao Departamento de Segurança Interna (DHS), que confirmou o fornecimento de “pistas investigativas” ao ICE para localizar crianças com “responsáveis não verificados”, incluindo aqueles com antecedentes criminais.

O Custo Humano: Histórias de Detenção e Separação Familiar

Aurora, mãe de 6 anos, reencontrou sua filha após mais de seis meses separadas. A menina chegou sozinha à fronteira e foi acolhida por um abrigo do ORR. Aurora, que já estava nos EUA trabalhando como faxineira, passou por um longo processo de verificação para retirar a filha do abrigo, fornecendo extensa documentação, incluindo um teste de DNA, e sem antecedentes criminais.

Dias após o reencontro, mãe e filha foram detidas pelo ICE e enviadas para um centro de detenção familiar no Texas. Elas ficaram presas por três semanas e, após a liberação, Aurora recebeu uma tornozeleira eletrônica e deve comparecer a verificações regulares enquanto aguarda o julgamento de seu caso. O DHS confirmou os detalhes, alegando que Aurora admitiu ter sido “contrabandeada ilegalmente através da fronteira”.

A detenção resultou na perda do emprego de Aurora e de seus pertences. Agora em um novo estado, ela teme a deportação e relata que sua filha acorda chorando à noite, revivendo o trauma da detenção. O caso de Aurora é um dos mais de 12 mil em que o ORR denunciou pessoas ao ICE, levando a prisões.

Mais Famílias Impactadas: A Realidade da Fiscalização Imigratória

A história de Marleny e seu filho Victor também ilustra as consequências dessa política. Fugindo da violência na Guatemala, Marleny e seu filho mais novo chegaram aos EUA, enquanto Victor permaneceu com a família até que a morte de um tio o levou a também migrar e se entregar às autoridades americanas.

Após quatro meses sob custódia do ORR, Victor foi liberado próximo a completar 18 anos. Pouco tempo depois, Marleny e seu companheiro foram presos pelo ICE sob a mira de armas enquanto iam trabalhar. O DHS alegou que a prisão era parte de um mandado contra o “colega de quarto” de Marleny, sem detalhar a natureza do suposto crime.

A prisão de Marleny foi traumática, remetendo-a à violência de seu país de origem. Victor, ao saber da prisão da mãe, ligou para um assistente jurídico. Ele agora cuida de seu irmão mais novo e enfrenta uma ordem de deportação após ter esquecido de comparecer ao tribunal em meio ao caos. Advogados relatam “muitos responsáveis presos e prisões colaterais” como resultado dessas denúncias.

O Aumento do Tempo de Detenção e as Consequências a Longo Prazo

Sob a administração Trump, o processo de triagem para responsáveis por crianças migrantes desacompanhadas incluiu etapas extras, como a exigência de impressões digitais de todos os membros do domicílio. Essa mudança aumentou significativamente o tempo que as crianças passam sob custódia. Dados do ORR indicam um salto de uma média de 30 dias no ano fiscal de 2014 para 194 dias em junho de 2016.

O ORR justifica essas verificações ampliadas como medidas para proteger as crianças de danos. No entanto, defensores legais e famílias migrantes argumentam que essa colaboração com o ICE transformou um sistema de proteção em um mecanismo de deportação, com um alto custo humano e emocional para aqueles que buscam refúgio e uma vida melhor nos Estados Unidos.

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