Chilena dada como desaparecida na era Pinochet é encontrada viva na Argentina após 50 anos, gerando reviravolta em caso de direitos humanos
A chilena Bernarda Rosalba Vera Contardo, que por décadas foi considerada uma das vítimas de desaparecimento forçado durante a ditadura de Augusto Pinochet, foi encontrada viva na Argentina. O caso, que chocou o país, revela uma reviravolta surpreendente na história de uma mulher dada como morta há mais de 50 anos.
Bernarda Vera desapareceu em outubro de 1973, pouco após o golpe militar. Acreditava-se que ela havia sido detida e executada, sendo incluída no Relatório Rettig como uma das 1.469 vítimas de desaparecimento forçado no Chile. No entanto, a realidade se mostrou completamente diferente.
Foi em meados do ano passado que a emissora de TV Chilevisión a localizou em Miramar, um balneário na província de Buenos Aires. A confirmação oficial veio nesta semana, com um relatório pericial de DNA que atestou, com mais de 99,9999% de probabilidade, que se trata da mesma pessoa. A notícia foi divulgada pelo Poder Judiciário do Chile, que solicitou o teste genético.
A versão oficial: Morte em Liquiñe
Em 1973, Bernarda Vera tinha 27 anos, era casada e mãe de uma filha de 5 anos. Militante do Movimento de Esquerda Revolucionário (MIR) e do Movimento Camponês Revolucionário (MCR), ela foi incluída no Relatório Rettig, publicado em 1991. Segundo o documento, Vera teria sido detida em 10 de outubro de 1973, em Liquiñe, e supostamente executada junto com outras 15 pessoas na ponte de Villarrica sobre o rio Toltén.
O relatório oficial detalhava que ela estava sendo intensamente procurada pelas autoridades militares e que seus familiares foram informados de que ela havia sido condenada à morte à revelia. A versão apontava que os corpos teriam sido lançados no rio.
A reviravolta: Fuga para a Argentina e nova vida
As primeiras dúvidas sobre a versão oficial surgiram com o testemunho de José Manuel Bravo, ex-militante do MIR, arquivado no Museu de Neltume. Bravo relatou que um grupo de pessoas, incluindo Bernarda Vera (conhecida como Anita), conseguiu escapar dos militares em outubro de 1973 e fugir para as montanhas. Ele afirmou ter permanecido com ela na serra até dezembro de 1973, dois meses após sua suposta detenção.
Acredita-se que, nessa época, Bernarda Vera conseguiu fugir clandestinamente para a Argentina com a ajuda de um membro do MIR, o sueco Svante Grände. Na Argentina, ela se casou novamente, teve filhos, adquiriu nacionalidade sueca e morou por anos na província de Buenos Aires, onde foi encontrada pela Chilevisión.
A busca pela filha e as implicações legais
A filha de Bernarda Vera, que tinha apenas 5 anos em 1973, buscou incansavelmente por sua mãe durante anos, sem ter noção de que ela estivesse viva. Ao ser informada pela equipe de reportagem sobre o paradeiro da mãe, ela demonstrou incredulidade, afirmando que, se Bernarda estivesse viva, teria entrado em contato.
Com a confirmação de que Bernarda Vera não é uma vítima de desaparecimento forçado, membros da direita chilena pediram uma investigação para apurar se houve fraude no recebimento de pensões de reparação por parte de familiares. O governo chileno informou que solicitará investigações sumárias para determinar eventuais responsabilidades administrativas e judiciais.
O silêncio de Bernarda Vera
Bernarda Vera, agora com 80 anos, optou por não falar com a imprensa, mas através de seu filho Maximiliano, transmitiu que sempre imaginou que este momento chegaria. Ela afirmou que não renunciará à vida que construiu e que não tem medo de nada. Seu filho reiterou que ela apenas deseja viver em paz, longe de seu passado.
O caso levanta questões sobre a diligência das autoridades chilenas em investigar o paradeiro de desaparecidos e a veracidade dos relatos que levaram à inclusão de Bernarda Vera no Relatório Rettig. O processo judicial sobre o desaparecimento de Bernarda Vera foi aberto em 2009 e reaberto em 2025 após inconsistências serem detectadas pelo Plano Nacional de Busca, uma iniciativa do governo chileno para esclarecer o destino dos desaparecidos políticos.





