Jornalista espanhol Jordi Évole lança documentário impactante com ex-dirigente da ETA, Josu Ternera, provocando reflexão sobre memória e jornalismo.
O jornalista espanhol Jordi Évole, conhecido por suas entrevistas provocativas e aprofundadas, lança na Netflix o documentário “No me llame Ternera”. A obra mergulha em um dos capítulos mais dolorosos da história recente da Espanha: o terrorismo do grupo ETA.
O filme traz como figura central Josu Urrutikoetxea, conhecido como Josu Ternera, um dos principais líderes da organização. A decisão de conceder-lhe uma longa entrevista gerou intenso debate no país, levantando a questão sobre se um jornalista estaria dando palco a um terrorista ou cumprindo um papel essencial para a memória histórica.
Mais do que apenas relatar o conflito, que ainda é pouco conhecido no Brasil, “No me llame Ternera” transforma a própria entrevista em um objeto de análise. O documentário, conforme divulgado em matérias sobre o lançamento, não se propõe a confrontar teatralmente, mas a oferecer tempo e espaço para que o entrevistado revele suas próprias contradições, com o objetivo de compreender, e não justificar, o mal.
A ETA e seu legado de violência
Fundada em 1959, durante a ditadura de Francisco Franco, a ETA, sigla para “Euskadi Ta Askatasuna” (Pátria Basca e Liberdade), iniciou como um movimento nacionalista basco. Contudo, ao longo de mais de cinco décadas, tornou-se uma das organizações terroristas mais violentas da Europa Ocidental.
De acordo com informações sobre o grupo, a ETA foi responsável pela morte de 853 pessoas, incluindo policiais, militares, políticos e civis, além de deixar milhares de feridos. A organização abandonou definitivamente a luta armada em 2011 e se dissolveu formalmente em 2018.
O desafio de entrevistar Josu Ternera
A presença de Josu Ternera, condenado na França e alvo de processos na Espanha, torna a empreitada de Évole ainda mais delicada. O documentário questiona não apenas se é correto entrevistar um terrorista, mas, fundamentalmente, como fazê-lo de maneira jornalisticamente responsável.
Jordi Évole adota uma abordagem que se distancia do confronto direto e da humilhação. Em vez disso, o jornalista insiste, retorna às perguntas e confronta as versões apresentadas, explorando também os silêncios. O mérito reside em compreender que entrevistar não significa concordar, mas sim extrair do personagem o conforto das respostas prontas.
Jornalismo como ferramenta de compreensão
O documentário “No me llame Ternera” não busca absolver Josu Ternera. Pelo contrário, ao lhe dar espaço para falar, permite que o espectador avalie as justificativas, as evasivas e os momentos de memória seletiva. É um exercício de jornalismo raro, que resiste à tentação de transformar a entrevista em um tribunal ou espetáculo.
Em um cenário de comunicação cada vez mais fragmentada e focada em conteúdos de curta duração para redes sociais, o filme de Évole ressalta a importância do tempo, da escuta e da preparação no jornalismo. Compreender o mal, segundo a perspectiva apresentada, não é justificá-lo, mas sim enfrentá-lo com perguntas corajosas e pacientes.
O protagonismo do jornalismo
Ao final, o verdadeiro protagonista do documentário pode ser o próprio jornalismo. Jordi Évole demonstra que ainda há espaço para entrevistas que iluminam a história com rigor, sem abrir mão da profundidade. “No me llame Ternera” serve como um lembrete poderoso do papel crucial do jornalismo em confrontar as feridas abertas do passado e promover uma reflexão crítica sobre o presente.





