Diplomatas veem revogação de visto de embaixadora brasileira como ato gravíssimo e anômalo por parte dos EUA
A decisão do governo Donald Trump de revogar o visto da embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Viotti, está sendo amplamente criticada por diplomatas, tanto americanos quanto brasileiros. A medida é considerada **gravíssima, desproporcional e sem precedentes** na história das relações diplomáticas entre os dois países.
Especialistas ouvidos pela Folha apontam diversos aspectos que tornam a ação anômala. Tradicionalmente, os Estados Unidos levam mais tempo para analisar pedidos de ‘agrément’, que é o aval para um embaixador estrangeiro, e a demora raramente resulta em retaliações diretas, muito menos na revogação de vistos.
A justificativa apresentada pelos EUA para a revogação foi a demora na concessão do ‘agrément’ a Daniel Perez, indicado por Trump para a embaixada em Brasília. No entanto, segundo diplomatas americanos, o processo de análise e concessão de aval para embaixadores em outros países costuma levar, no mínimo, **dois a três meses**. No caso de Perez, o pedido foi feito em junho, e pouco mais de dois meses se passaram desde então.
Quebra de Protocolo e Ausência de Retaliações Prévias
Diplomatas americanos confirmam que os EUA geralmente levam de dois a três meses para analisar pedidos de ‘agrément’. O caso de Daniel Perez, com pouco mais de dois meses de espera desde o pedido em junho, não foge à regra, e não há registros de outros países revogando vistos de embaixadores americanos por atrasos semelhantes. Essa prática de revogar vistos por demora na concessão de ‘agrément’ é inédita.
Além disso, a prática diplomática estabelecida é que a demora ou a sinalização de que um país não concederá o aval para um embaixador indicado **não costuma gerar retaliações contra diplomatas**. Esse tipo de medida drástica, como a expulsão de embaixadores, é reservado para situações de conflito mais severo.
Casos Anteriores e a Regra de Ouro da Diplomacia
Para ilustrar a normalidade em situações diplomáticas, foram citados dois exemplos recentes. Em 2015, Israel pediu o ‘agrément’ para Dani Dayan ser embaixador no Brasil, mas o governo brasileiro se opunha à política de assentamentos israelense. Após meses de indefinição, Israel retirou o pedido e, embora tenha havido críticas e um rebaixamento temporário das relações, **nenhuma retaliação foi tomada contra o embaixador brasileiro em Israel**.
Em 2021, o governo brasileiro retirou o pedido de ‘agrément’ para Marcelo Crivella como embaixador na África do Sul, após a solicitação ser ignorada por Pretória. Assim como no caso anterior, **o governo brasileiro não tomou nenhuma retaliação contra o embaixador sul-africano** em Brasília, que permaneceu no cargo. Esses casos reforçam a anomalia da ação americana.
Trump Desrespeita Regras Básicas da Diplomacia
Segundo diplomatas americanos e brasileiros, a decisão de Trump de anunciar publicamente o nome de Daniel Perez como novo embaixador nos EUA **antes de obter o aval brasileiro viola uma regra básica da diplomacia**. Essa prática, conhecida como consulta prévia, é fundamental para manter a harmonia e o respeito nas relações bilaterais.
Ao cobrar rapidez na concessão do ‘agrément’ e, ao mesmo tempo, revogar o visto da embaixadora brasileira, o governo Trump quebrou protocolos e demonstrou um **claro desrespeito às normas diplomáticas internacionais**. A ação, portanto, é vista como um movimento inédito e de **altíssima gravidade** no cenário das relações exteriores.





