EUA Ignoram Tradição Diplomática em Crise com Brasil: Visto de Embaixadora Revogado em Ação Inédita
A recente decisão do governo Donald Trump de revogar o visto da embaixadora brasileira nos Estados Unidos, Maria Luiza Viotti, gerou forte repercussão e críticas de especialistas. A medida é vista como um rompimento com mais de dois séculos de normas diplomáticas, levantando preocupações sobre a conduta americana nas relações internacionais.
Especialistas ouvidos pela Folha classificaram a ação como “absurda” e “sem sentido”, argumentando que o governo brasileiro agiu corretamente ao recusar vistos para diplomatas americanos que teriam como objetivo questionar o sistema eleitoral do país, algo que Washington nega.
Essa tensão diplomática, somada a uma suposta demora na concessão do agrément para o indicado de Trump à embaixada em Brasília, Daniel Perez, desencadeou a retaliação contra a embaixadora Viotti. As informações foram divulgadas pela Folha.
Revogação de Visto de Embaixadora Brasileira: Um Ato Inédito e Questionável
Rubens Barbosa, renomado diplomata e ex-embaixador do Brasil nos EUA e no Reino Unido, declarou que a decisão americana “não faz nenhum sentido”. Segundo ele, os Estados Unidos “fizeram tudo errado” no processo de agrément, que normalmente é sigiloso e ocorre antes de anúncios públicos e avaliações legislativas.
“Deixaram de lado 200 anos de regras diplomáticas, inverteram tudo e agora pressionam para que o Brasil acelere a nomeação”, afirmou Barbosa, comparando a situação com seu próprio processo de agrément, que demorou mais de 30 dias, assim como o de seu sucessor. Ele enfatizou que “os EUA estão errados” nesta questão.
O processo de agrément para Daniel Perez foi iniciado em 30 de junho, e a revogação do visto da embaixadora Viotti ocorreu 35 dias depois, em 4 de agosto. O nome de Perez, um republicano e deputado estadual da Flórida, foi anunciado em 1º de junho e já foi aprovado em comitê do Senado dos EUA, aguardando votação plenária.
Acusações de Interferência Eleitoral e Enfraquecimento da Diplomacia
Barbosa também conectou o episódio a uma possível “interferência nas eleições”. Ele lembrou que o governo americano tem um histórico de interferir em eleições na América Latina, e que não seria surpreendente uma tentativa semelhante no Brasil. O diplomata ressaltou a importância de o governo brasileiro reagir para defender a soberania nacional, mas alertou para a necessidade de evitar que a crise saia do controle.
José Pio Borges, presidente do conselho curador do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), classificou a revogação do visto de Viotti como “absurda”. Ele destacou a competência da embaixadora, que foi a primeira mulher a ocupar o cargo em Washington e possui vasta experiência em altos escalões nas Nações Unidas.
Borges avalia que a decisão americana reflete um **contexto de enfraquecimento da atuação diplomática dos EUA**, citando a existência de dezenas de postos diplomáticos vagos no país. Ele criticou a condução da indicação do novo embaixador americano para Brasília, considerando-a uma “deselegância”, pois o governo brasileiro ainda estava analisando o pedido.
Diálogo Bilateral e Perspectivas para o Futuro
Apesar das dificuldades, Borges assegurou que a diplomacia brasileira tem buscado o diálogo em diversas frentes, inclusive em negociações sobre tarifas. Ele apontou que a embaixadora Viotti e o vice-presidente Geraldo Alckmin tentaram estabelecer um diálogo formal com o Departamento de Estado americano.
Uma das razões apontadas para as tensões é a postura do Secretário de Estado americano, Marco Rubio, que, segundo Borges, demonstra uma antipatia incomum por países latino-americanos. “O secretário de Estado é, talvez pela origem cubana e por alguma razão psicológica qualquer, o primeiro secretário de Estado americano que tem raiva do Brasil e não gosta nem dos países da América Latina”, comentou Borges.
Mesmo com a falta de abertura do Departamento de Estado, empresas brasileiras conseguiram avançar em negociações específicas através de representantes e escritórios de lobby nos EUA. Borges reiterou que a dificuldade reside na falta de diálogo do Departamento de Estado americano, e não da diplomacia brasileira.
Borges não descarta uma possível escalada das tensões, dado o histórico de ações imprevisíveis da política externa de Trump e o desgaste nas relações com aliados tradicionais. Contudo, ele defende que a relação bilateral, de **grande importância histórica e afeição entre os dois países**, não deve ser comprometida.
Rubens Barbosa acrescentou que, embora atritos sejam naturais entre potências como Brasil e EUA, desta vez a crise é agravada por “considerações ideológicas”, tanto em Washington quanto em Brasília, o que representa uma novidade nas relações bilaterais.





