Rede Criminosa Transforma Jovens em Assassinos de Aluguel na Europa: “Violência como Serviço” é a Nova Tática
Um estudante de 20 anos morto a tiros em Estocolmo, um adolescente norueguês condenado em Londres por planejar um assassinato, e uma rede criminosa que opera com um modelo de “violência como serviço” (VaaS). Esses são os contornos de uma nova e alarmante realidade na Europa, onde gangues recrutam adolescentes para executar crimes violentos, muitas vezes sem que os jovens recebam o pagamento prometido.
A Rede Foxtrot, um grupo de crime organizado com suspeitas de ligações com o regime iraniano, é um dos principais exemplos dessa prática. A organização é acusada de orquestrar cerca de 35 assassinatos e diversos ataques contra alvos israelenses na Europa desde 2022. O modus operandi envolve o recrutamento de jovens, muitas vezes em situação de vulnerabilidade, através de táticas inspiradas em videogames.
A Europol, agência de polícia da União Europeia, criou uma força-tarefa, a OTF GRIMM, para combater esse fenômeno. Com 11 países europeus envolvidos, a operação busca desmantelar essas redes que exploram a juventude para seus objetivos criminosos, sejam eles ligados a disputas por drogas ou a agendas políticas. Conforme informações divulgadas pela Europol, os adolescentes são atraídos por promessas de dinheiro e instruídos em um sistema “gamificado”.
O Recrutamento “Gamificado” e a Vulnerabilidade Juvenil
O caso de Johannes Natland, um adolescente norueguês de 18 anos, exemplifica o perigo desse sistema. Natland foi condenado em Londres por planejar um assassinato a mando da Rede Foxtrot. Ele foi recrutado através de redes sociais por um contato com o codinome “UnknownHustler”, que lhe propôs uma quantia considerável em dinheiro para executar um crime na Inglaterra. A oferta, segundo a fonte, era de 270 mil coroas norueguesas, aproximadamente R$ 143 mil.
Natland, apesar de ter uma criação confortável, envolveu-se com drogas e desenvolveu psicose, o que o levou a conhecer outros jovens em instituições de reabilitação. Foi nesse ambiente que ele foi exposto ao recrutamento. O contato com “UnknownHustler” o levou a “Generalen”, outro adolescente que, aos 16 anos, já possuía experiência em instituições para menores e passou a recrutar Natland para o assassinato.
A instrução de Natland foi conduzida de forma detalhada e metódica, com um membro da Foxtrot, identificado como “Agent 47” (uma referência ao jogo “Hitman”), guiando-o em cada passo. “Agent 47” providenciou a passagem aérea, ajudou com um passaporte de emergência e, via aplicativo de mensagens Signal, transmitiu as instruções. A orientação incluía um mapa e vídeos ensinando como encontrar armas escondidas e um esconderijo de dinheiro, simulando uma dinâmica de videogame.
Rede Foxtrot e as Suspeitas Ligações com o Irã
A Rede Foxtrot, liderada por Rawa Majid, que fugiu da Suécia e agora reside em Teerã, capital do Irã, é suspeita de ter ligações com o regime iraniano. Diamant Salihu, jornalista investigativo sueco, aponta que o regime pode estar utilizando a rede para atingir “inimigos do governo”, como dissidentes, jornalistas opositores e alvos israelenses. Essas ligações teriam se intensificado após Majid se mudar para o Irã em outubro de 2023, supostamente em troca de liberdade para trabalhar para o regime.
A polícia acredita que alguns ataques, como um com granada contra a embaixada de Israel em Copenhague, foram executados a mando do regime. Outras ações da Foxtrot estariam ligadas a disputas pelo controle do mercado de drogas. Em abril de 2025, a Rede Foxtrot e Majid foram alvo de sanções do governo do Reino Unido, um mês após a prisão de Natland.
O Ciclo de Recrutamento e a Impunidade Parcial
Um aspecto crucial do modus operandi da Foxtrot, conforme relatado por Salihu, é que os adolescentes raramente recebem o pagamento prometido. Isso ocorre porque, na maioria das vezes, eles são presos antes de concluir o crime. Essa dinâmica, segundo o jornalista, é uma política deliberada da rede, que se aproveita da falta de percepção de consequências por parte dos jovens, tornando-os mais propensos a aceitar os riscos.
O caso de “Generalen” ilustra essa dinâmica. Ele não apenas recrutou Natland, mas também estaria envolvido em outros assassinatos na Suécia. “Generalen” foi detido ao tentar organizar o assassinato do filho de um policial norueguês, onde recrutou dois adolescentes. O mais jovem acabou delatando o plano para a polícia, levando à prisão de “Generalen” e à descoberta dos detalhes do plano em Huddersfield, o que permitiu a prisão de Natland a tempo.
Combate à “Violência como Serviço” e a Persistência da Ameaça
A OTF GRIMM, força-tarefa da Europol, tem obtido progressos, com mais de 280 prisões em 15 meses, incluindo suspeitos importantes como Ali Shehad Ahmed, suspeito de ser o “Agent 47”, detido no Iraque. A Suécia, país com forte atuação na investigação, tem expandido a cooperação internacional para mostrar aos criminosos que “eles não podem se sentir seguros em nenhum lugar do mundo”, segundo Stefan Hector, vice-comissário nacional de polícia da Suécia.
Apesar das prisões, a ameaça persiste. Outros grupos, como a rival Rede Dalen, já adotaram o modelo de “violência como serviço”. A Rede Foxtrot, embora com alguns de seus membros detidos, como o ex-rapper Mohamed “Moewgli” Mohdhi, preso na Tunísia, ainda tem seu líder, Rawa Majid, foragido no Irã. “Ele ainda está ativo”, alerta Salihu, “E, enquanto essa rede continuar ativa, temo que continuaremos vendo ataques contra os inimigos do regime iraniano.” O fenômeno, que se espalhou da Suécia para outros países europeus, representa um desafio contínuo para as autoridades.





