Suprema Corte da Rússia bane o partido Iabloko de eleições; oposição a guerra da Ucrânia é silenciada
A Suprema Corte da Rússia tomou uma decisão impactante nesta segunda-feira (10), banindo o partido Iabloko, a última legenda com uma agenda explicitamente contrária à Guerra da Ucrânia, de participar das eleições parlamentares de 20 de setembro. A decisão marca um novo capítulo no engessamento político russo, especialmente relevante por ser a primeira eleição federal legislativa desde o início do conflito.
O partido, cujo nome é um acrônimo dos seus fundadores e significa “maçã” em russo, enfrentou acusações da sigla nacionalista Rodina, de que seus candidatos seriam traidores financiados pelo exterior. A liderança do Iabloko, no entanto, nega as alegações e afirma que recorrerá da decisão, mantendo seu compromisso com a paz.
Essa manobra consolida o controle do Kremlin sobre o cenário político, limitando a atuação de partidos que integravam a chamada “oposição consentida”. Analistas apontam que, mesmo com o apoio à guerra em níveis historicamente baixos, o governo russo busca evitar qualquer dissidência significativa, especialmente em um momento delicado. Conforme informação divulgada pelo Centro Levada, o apoio à guerra está em 66%, o nível mais baixo em quase quatro anos e meio de conflito.
Iabloko contesta decisão e alega perseguição política
Nikolai Ribakov, chefe do Iabloko, declarou que o partido irá recorrer da decisão dentro do prazo legal de cinco dias. Ele refutou veementemente as acusações de financiamento externo, reiterando o posicionamento pacifista da legenda em relação ao conflito na Ucrânia, iniciado em fevereiro de 2022. O Iabloko, fundado em 1993, é o mais antigo partido liberal da Rússia pós-soviética.
A ação contra o partido ocorreu logo após a Comissão Eleitoral Central ter aprovado um número expressivo de candidatos da sigla, 404, para concorrer a vagas na Duma, a Câmara baixa do Parlamento russo. Essa aprovação inicial havia gerado especulações sobre a possibilidade de o Iabloko conquistar alguma representação, apesar das dificuldades impostas pelo sistema político russo, fortemente dominado pelo partido Rússia Unida, que detém 315 dos 450 assentos.
Protestos e repressão marcam o banimento do partido
O banimento do Iabloko provocou um raro protesto em frente à Suprema Corte, com mais de 500 jovens reunidos, segurando maçãs, símbolo do partido. Os manifestantes, que gritavam “Vergonha”, foram dispersados pela polícia sem violência, mas relatos indicam que foram ameaçados de alistamento forçado para combater na Ucrânia caso permanecessem no local.
Essa repressão evidencia o **endurecimento progressivo da política russa** sob o comando de Vladimir Putin, que está no poder desde 1999. Desde 2011, a legislação russa tem sido gradualmente apertada para dificultar o registro de partidos e candidatos independentes que se oponham ao Kremlin. Leis mais recentes criminalizam a crítica às Forças Armadas, com penas que podem chegar a 15 anos de prisão, atingindo ONGs e jornalistas com contatos no exterior.
Histórico de repressão à oposição na Rússia
O caso do Iabloko se insere em um contexto mais amplo de restrição da liberdade política na Rússia. Um exemplo marcante foi o movimento liderado pelo ativista Alexei Navalny, que emergiu em 2017 com protestos contra a corrupção. Navalny, após entrar em conflito com figuras pró-Kremlin e com o próprio Putin, foi envenenado em 2020, acusado o FSB e o presidente russo.
Após tratamento médico no exterior, Navalny retornou à Rússia, foi preso e condenado a 30 anos de prisão. Ele faleceu em circunstâncias não esclarecidas em uma prisão no Ártico em 2024, tornando-se um símbolo da **opressão à vida política** sob o regime de Putin, mesmo sem ter tido expressiva densidade eleitoral nacional.
O Iabloko, embora não tenha mais deputados na Duma desde 2007 e possua apenas cinco representantes em legislativos regionais, ainda exerce certa influência sobre a classe média intelectualizada de Moscou. Sua posição pacifista, no entanto, o tornava um incômodo para o governo, especialmente em um momento em que a Rússia busca consolidar seu discurso em torno da guerra na Ucrânia.





