Raúl Castro reaparece em evento público em Havana, celebrando centenário de Fidel em meio a turbulências em Cuba.
O ex-dirigente de Cuba, Raúl Castro, irmão de Fidel Castro, fez uma aparição pública rara nesta quinta-feira (13) em Havana. A ocasião foi a comemoração do centenário de nascimento do líder revolucionário, falecido há uma década. A presença de Raúl Castro, aos 95 anos, ocorreu em um momento delicado para a ilha, marcado por uma crise energética sem precedentes.
A última vez que o político havia sido visto em público foi no Dia do Trabalho, em 1º de maio, semanas antes de ser alvo de sanções dos Estados Unidos. Sob a administração de Donald Trump, a Casa Branca intensificou as pressões para desestabilizar o regime cubano, incluindo um bloqueio de petróleo que impactou severamente o sistema energético da nação.
Essa crise, considerada a maior desde a revolução de 1959, coincide com as celebrações. Os eventos em homenagem a Fidel Castro incluíram um colóquio de três dias no Centro de Convenções de Havana e culminaram em uma cerimônia no Teatro Karl Marx. Conforme informações divulgadas por agências de notícias presentes no local, Raúl Castro foi ovacionado ao entrar no teatro, vestindo sua tradicional farda verde-oliva.
Raúl Castro demonstra apoio e influência política
Durante a cerimônia, Raúl Castro levantou-se para incentivar aplausos mais fortes ao grupo de teatro infantil La Colmenita, que homenageou Fidel com uma apresentação. O grupo havia se apresentado para o líder revolucionário em uma de suas últimas aparições públicas em 2016. Embora não ocupe um cargo formal no governo, a influência política de Raúl Castro em Cuba permanece significativa.
Um exemplo disso ocorreu em junho, quando o Parlamento cubano aprovou um pacote de reformas econômicas. Antes da aprovação, o regime precisou usar suas redes sociais para confirmar que Raúl Castro estava ciente e concordava com as mudanças. A publicação em questão, divulgada pela conta oficial do regime no X, afirmava que “o general do Exército Raúl Castro Ruz, líder à frente da revolução, foi consultado e concorda plenamente com as transformações propostas”.
Essas reformas, que compreendem 176 ações, buscam mitigar a crise econômica, incentivando o investimento privado e estrangeiro, uma demanda histórica dos Estados Unidos. A iniciativa visa abrir a economia cubana em resposta às dificuldades enfrentadas.
Crise energética e o legado de Fidel Castro em foco
O bloqueio imposto pelos Estados Unidos, que já resultou em pelo menos seis apagões generalizados desde o início do ano, foi sutilmente mencionado pelo atual dirigente cubano, Miguel Díaz-Canel. Na abertura do colóquio, em 10 de junho, ele declarou que “o legado de Fidel nos fala hoje com mais força do que nunca”.
Díaz-Canel descreveu Fidel Castro como “um guia para superar os desafios que enfrentamos hoje, na Cuba real de 2026”. Nesta quinta-feira, o atual líder agradeceu a presença de cerca de 1.500 pessoas, que, segundo o regime, viajaram de mais de 60 países para participar dos eventos em Havana.
“A presença de vocês em Cuba é um ato de coragem e coerência, pois vir a Cuba hoje, em meio à intensificação do bloqueio e da hostilidade imperial, é um gesto de solidariedade militante que honra o legado de Fidel”, disse Díaz-Canel. Ele também ressaltou o “legado do otimismo revolucionário” de Fidel, lembrando que o líder “nunca foi pessimista”, mesmo em “dias sombrios”, como durante o colapso do bloco socialista e a intensificação do bloqueio, períodos que remetem ao chamado “Período Especial” em Cuba.
Análise externa e a percepção do evento
A pesquisadora americana Lillian Guerra, filha de exilados cubanos, avalia que o evento teve um foco maior no público estrangeiro do que na população local. Segundo ela, “é fora do país que encontram narrativas simplistas, que encontram uma ressonância que tem muito pouco a ver com a realidade interna de Cuba”.
Guerra também aponta que a propaganda em torno da figura de Fidel Castro já é uma constante na vida cotidiana dos cubanos. “Basta ligar a televisão em Cuba, caminhar pelas ruas, ir à escola ou ficar em frente a qualquer muro, qualquer cerca, e você verá a mesma coisa”, afirma a professora de história da Universidade da Flórida. Ela acrescenta que “o mito de Fidel começou fortemente, eu diria, na década de 1960, mas se fortaleceu depois de sua morte”.
Enquanto isso, os Estados Unidos não descartam a possibilidade de intervenções em Cuba, comparando a situação com a retirada do ditador Nicolás Maduro do poder na Venezuela. O secretário de Defesa americano, Pete Hegseth, afirmou em 12 de junho que “todas as opções estão sobre a mesa, inclusive as militares”, sinalizando a contínua tensão entre os dois países.





