O físico Philip Morrison, que auxiliou na fabricação da bomba atômica lançada sobre Nagasaki, quebrou o silêncio sobre as decisões tomadas durante o Projeto Manhattan, revelando a complexidade e as preocupações envolvidas no desenvolvimento da arma nuclear.
Trinta anos após o bombardeio de Nagasaki, o físico americano Philip Morrison compartilhou com a BBC suas reflexões sobre os eventos que levaram ao uso da bomba atômica. Morrison, que trabalhou no laboratório de Los Alamos sob a liderança de J. Robert Oppenheimer, teve um papel crucial no Projeto Manhattan, o programa secreto para desenvolver as primeiras armas nucleares.
Ele participou do teste Trinity, da primeira bomba atômica, e transportou o núcleo de plutônio para sua montagem. Sua atuação se estendeu até a ilha de Tinian, onde supervisionou o carregamento da bomba “Fat Man”, utilizada em Nagasaki, apenas três dias após o ataque a Hiroshima.
As revelações de Morrison, divulgadas pela BBC Culture, pintam um quadro detalhado da escala da guerra e da magnitude do poder destrutivo da bomba atômica. Conforme informação divulgada pela BBC Culture, o cientista descreveu os preparativos em Tinian, onde um “maior aeroporto do mundo” foi construído, com seis pistas de pouso. Milhares de toneladas de gasolina chegavam diariamente para abastecer os aviões B-29, que realizavam ataques massivos.
A Escala da Destruição e a Comparação com a Bomba Atômica
Morrison contrastou a escala dos bombardeios convencionais com o lançamento da bomba atômica. Enquanto ataques anteriores envolviam centenas de aeronaves incendiando vastas áreas de cidades japonesas, o lançamento da “Fat Man” exigiu um grupo menor de especialistas e uma estrutura mais contida. Ele relatou que, em vez de navios carregados de bombas incendiárias, havia um pequeno grupo de cientistas e laboratórios improvisados.
As consequências foram devastadoras. Estima-se que 40 mil pessoas morreram na explosão inicial em Nagasaki, com mais de 100 mil mortes atribuídas ao bombardeio nos cinco anos seguintes. Em Hiroshima, o número de mortos pela explosão e seus efeitos subsequentes chegou a aproximadamente 140 mil.
Em uma visita a Hiroshima, Morrison presenciou a dimensão da destruição. Um funcionário japonês, em meio aos escombros, expressou o choque com o poder de uma única bomba: “Tudo isso causado por uma única bomba, é insuportável”, disse ele, conforme relatado por Morrison.
Um Impulso Imparável e a Ausência de Alternativas
Apesar da preocupação com a humanidade, Morrison afirmou que nunca consideraram não lançar a bomba. Ele descreveu a sensação de um “impulso impossível de deter”, mesmo com a iminente derrota nazista. A guerra no Pacífico e o avanço tecnológico tornavam a parada do projeto extremamente improvável.
Morrison acredita que a morte do presidente Franklin D. Roosevelt em abril de 1945 foi um ponto crucial. Roosevelt, com seu prestígio e força política, seria a única pessoa capaz de frear o “terrível impulso” do desenvolvimento nuclear. Com a ascensão de Harry Truman, que sequer conhecia o projeto inicialmente, a decisão de usar a bomba tornou-se praticamente inevitável.
“É verdade que ele tomou uma decisão, mas acho justo dizer que ele também foi tomado por ela”, argumentou Morrison sobre Truman, destacando que a morte de Roosevelt eliminou a possibilidade de reverter o projeto.
A Decisão de Lançar as Bombas e a Visão de “Fim do Mundo”
A decisão de lançar as duas bombas, Hiroshima e Nagasaki, de forma consecutiva também foi impulsionada por essa força implacável. Morrison explicou que não se tratava de uma primeira e uma segunda bomba, mas de uma ordem para lançar a segunda “assim que puder”. Interromper esse processo exigiria uma reflexão de alto nível em Washington, algo que, segundo ele, se tornou improvável.
O plano inicial era continuar lançando bombas nucleares por um ano, se necessário. Morrison chegou a elaborar um cronograma para essa contingência. No entanto, a percepção das consequências reais dos ataques mudou a perspectiva dos cientistas.
Embora intelectualmente cientes dos efeitos das bombas, a visão da destruição e da morte causou um impacto profundo. Na noite do bombardeio de Hiroshima, enquanto muitos celebravam o fim da guerra, os cientistas de Los Alamos sentiram-se “abatidos”, contemplando o “fim do mundo”.
Campanha Contra a Proliferação Nuclear
Após a guerra, Philip Morrison dedicou-se a alertar sobre os perigos da proliferação nuclear. Tornou-se professor no MIT e um ativista contra o desenvolvimento de novas armas atômicas. Ele defendia que um “aviso apropriado e adequado” deveria ter sido dado ao Japão antes do uso da bomba.
“Como a maioria dos cientistas que participaram do projeto, estou completamente convencido de que não se pode permitir que outra guerra aconteça”, afirmou Morrison em seu depoimento ao Senado americano em 1945, reforçando a necessidade de evitar conflitos nucleares.





